Fundamental: não é com garra que se ganham títulos

Posted on Março 13, 2012 por

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Domingos Paciência passou por Alvalade sem ninguém ter dado por isso. Não deixou saudades e não há quem consiga dizer com certeza o que andou por lá a fazer. As imagens do ressurgimento de Alvalade, personificadas nas correrias loucas de um espanhol recém-chegado, misturam-se com as de um personagem apático e tristonho encostado ao acrílico do banco de suplentes – o tal que era suposto chegar, ver e vencer, mesmo sem nunca ter mostrado nada que desse tal garantia.

Alvalade sempre foi de aplaudir muito mais aquilo que faz menos sentido. Nesse aspeto, o seu público sempre foi muito mais irracional e apaixonado do que paciente e ombro-amigo. Alvalade prefere uma qualquer correria de um Capel a um passe para trás, inteligente, de um André Santos. Assim, enquanto foi fácil e tudo correu não-conforme trabalhado, protegeu-se uma ideia órfã de argumentos, que o Sporting isto e que aquilo, elevando-o ao patamar dos quase-imparáveis. Interpelado pelo fracasso da campanha, recuou confuso e só agora aceita que a mudança pode vir a ser positiva. Aqui e ali, entre Setúbal e o que poderá vir a significar Manchester, manter-se-á a passear o bipolarismo que atinge os apaixonados de Alvalade, habituados a um ciclo tremendamente curto de emoções que vão e vêm sem estabilizarem.

O puxão de orelhas, o esticão piscológico que põe as equipas a correr e a ganhar outra vez, funcionou com Sá Pinto. Tinha que funcionar, até, ou seria o refutar da teoria – se não funcionasse com ele, com quem é que haveria de funcionar? Este efeito motivador poderá até estender-se, por si só, até à jornada vinte e seis (recebe o Benfica), e mesmo um desaire contra o City seria facilmente “recuperado” com três vitórias fáceis nos três jogos seguintes. Entretanto, afastado da luta pelo título e naturalmente destinado a um quarto lugar, a pouca pressão poderá arrastar este momentum até final da época, salva com uma vitória no Jamor pela fotografia do Sá Pinto de taça ao alto e rodeado pelos que estarão com ele até à morte – um estádio inteiro. Se há quem tenha o crédito todo, é mesmo ele. Vá-se lá saber porquê, por estas alturas, mas é que Alvalade sempre foi de aplaudir muito mais aquilo que faz menos sentido.

Sá Pinto

Sá Pinto, vs Manchester City, 08-Mar-2012

Sá Pinto tem espaço de manobra. Terá, vendo bem as coisas, o maior espaço de manobra dos últimos anos à disposição do treinador do seu clube. Sá Pinto é respeitado por quem não respeita quem manda nele, não se lhe exige, dada a (pouca) experiência, quase nada para ano e meio de contrato e é identificado, por todos, como o Sporting feito Homem. Mais: Porto e Benfica estão fortíssimos e apresentam uma regularidade extraordinária, assumindo-se a um nível superior que começa a ser unanimemente aceite como não sendo o do Sporting. É fundamental aproveitar o bom contexto para alargar o ciclo; para iniciar um novo ciclo que dure mais tempo.

O esticão psicológico não substitui o bom futebol da mesma forma que não é com garra que se ganham títulos. Contribui, mas não deverá ser esse o elemento-mestre de um modelo que se quer de evolução, moderno e que perdure de forma sustentada. Sá Pinto deve preocupar-se, e o mais rapidamente possível, em construir um modelo de jogo e um modelo para o Sporting que assente em ideias claras e bem definidas – o seu “jogar à Sporting” tem que começar a aparecer de forma transversal a toda a estrutura.

A incorporação das equipas B na segunda liga, se sempre se der, pode muito bem ser uma das oportunidades mais claras para ajudar a cimentar este conjunto de ideias desde o início. Formar integralmente os jogadores mais novos, controlando a sua evolução e juntando às excelentes condições da Academia a competitividade necessária durante o período de transição dos melhores para a primeira equipa; fazê-los crescer sob uma identidade partilhada, para a qual todos contribuem, e devolver ao Sporting a autosuficiência e estabilidade necessárias para formar para vender, de forma a poder competir ao mais alto nível a médio prazo e poder equiparar-se, de novo, aos seus rivais, cada um com as suas armas. Sá Pinto deve olhar para dentro, para o que há de conhecer tão bem, e decidir-se pelo caminho acertado, aproveitar as oportunidades de exceção que se apresentam e fazer do Sporting aquilo que concerteza ambiciona e ninguém discute.

Deverá Alvalade ser mais ombro-amigo e paciente para fazer parte desta transição, pois sem esse apoio e sem essa aprovação não chegará onde todos querem. A euforia do sucesso, a ser vivida com a paixão de sempre, corre sérios riscos de se vazar em delírio e em catástrofe se não ficar tudo bem esclarecido desde início. E é fundamental alargar o ciclo. Base zero e construir o futuro. Sá Pinto, não é com garra que se ganham títulos.

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Fotografia: Mais Futebol

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