Shame ou These vagabond shoes

Posted on Março 14, 2012 por

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O embalo perturbante – daqueles de mãos cravadas na máxima força aos braços da cadeira de cinema – com que Shame nos seduz e convida droga-nos e levita-nos até ao limiar do prazer, altura em que duvidamos e nos envergonhamos dessas nossas sensações, confusos. O filme, passe o paralelismo, provoca-nos um quase-orgasmo sensorial de que temos vergonha passados uns segundos, ao abater-se sobre o ecrã a crua realidade que o estado de euforia revela ao desvanecer-se.

A mão de McQueen agarra-nos ao longo do filme e decide o nosso ritmo cardíaco: tão depressa nos rouba o ar do peito como no-lo liberta para o cigarro pós-sexo, assim ele decida. O toque é pesado e minucioso em todas as cenas, independentemente do tempo da partitura, do movimento (das correrias frenéticas e barulhentas) ou da falta dele – o controlo que existe sobre o silêncio em Shame, que abre e encerra o filme naquele elevador que nunca mais chega lá acima, é surpreendentemente brilhante.

Michael Fassbender - Shame

Michael Fassbender como Brandon Sullivan – Shame (2011)

Situamo-nos numa Nova Iorque pouco-para-turistas, palco de uma solidão angustiante e reveladora ao máximo dos contrastes mais cruéis que lhe dão vida. Veja-se, por exemplo, a solidez de uma vida de sucesso desmoronada e em queda-livre após a chegada do fator humano mais genuíno na figura da irmã do personagem principal, ou esta redescoberta da humanidade em constante conflito com o vício mais animal de todos, o sexo.

Shame consegue embelezar o abismo que nos apresenta, convidando-nos a aceitar o passo em frente imediatamente antes de nos fazer pensar nas consequências. Seduz-nos com o erro e com a vertigem (seja no limiar de uma plataforma de metro, seja rindo-se de forma louca, arrepiante, provocadora) mas rapidamente nos puxa para a realidade crua, nua, provocando o efeito do tal quase-orgasmo que não controlamos. A mão de McQueen tem-nos ao longo do filme.

É bonito. Verdadeiramente bonito de se ver, sendo talvez esse o derradeiro contraste. E Fassbender merece, também ele, um aplauso de pé.

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Fotografia: IMDb

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