John Cale — Paris 1919

Posted on Abril 6, 2012 por

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Não há neste mundo um intérprete, compositor, escritor, artista que, sozinho, tenha definido derradeiramente um género musical que tenha ficado para a história. Porém, e porque é justo que a esses lhe seja dado o reconhecimento devido, alguns tiveram o engenho supremo de criar uma ou mais obras-primas que constituíram uma fundação sobre a qual se edificaram outras peças musicais de elevada qualidade – ou não, mas desses não nos ocupamos. Se frequentemente não é possível ao comum dos mortais – e isto é transversal a qualquer arte – assertar que uma determinada obra influenciou um certo artista na criação de dado “produto”, não é descabido pensar-se que o primeiro a fazer aquilo que é “parecido ao resto” foi influente. Pelo menos foi pioneiro. E, no rock, a malha de escolas e formas de criar, compor e tocar é feita à base de influências, provocações, rupturas com o passado; tentativas de fazer tudo diferente que resultam na melhor coisa baseada em algo que já tinha sido feito. Os rótulos são perigosos, e não há categoria hermética que, aplicada à música, não falhe rotundamente por apresentar subdimensionado um conjunto que, na verdade, é extraordinariamente mais abrangente, mas, ao mesmo tempo, são imprescindíveis para perceber os finíssimos fios condutores que (combinados) dão origem àquilo que deve ser apreciado individualmente.

John Cale, nascido em 1942 em Garnant, aldeia no País de Gales, é um dos génios que, mesmo eventualmente sem intenção (dele e dos outros), mais influenciou o rock e o que veio a ser o “indie rock” mais distante da simplicidade (termo usado sem qualquer carga pejorativa) harmónica do punk. Multi-instrumentista de raiz clássica (o seu instrumento principal é a viola d’arco), talvez aquilo que mais destaque lhe tenha dado até hoje nos livros e enciclopédias de música é o facto de ser membro fundador, intérprete de vários instrumentos e voz secundária dos Velvet Underground e a sua participação nos dois primeiros álbuns da banda, The Velvet Underground and NicoWhite Light/White Heat, obra crucial da História do rock. Embora todas as suas composições e arranjos nos Velvet Underground valham individualmente, o brilhantismo da criatividade musical de Cale é patente logo nos primeiros segundos da primeira faixa do primeiro álbum da banda, com a sequência de notas tocadas em celesta com que começa a incrível “Sunday Morning”. A sua obra a solo teve muito menos divulgação e aclamação que a do colega Velvet Lou Reed, quiçá pelo facto de o primeiro nunca ter sido elevado ao ícone pop em que o segundo se tornou – quantos reconhecerão “Walk on the Wild Side” sem conhecer nenhum tema de John Cale? -, mas isso não invalida que Paris 1919, de 1973, gravação mais popular de Cale, seja um dos melhores discos de sempre.

Paris 1919 não é suficientemente extenso para ser um épico (nove canções, 31 minutos), mas começa como uma grande epopeia não desdenharia: “Child’s Christmas in Wales” não só é uma canção soberba, como funciona como espreitadela para dentro do resto do álbum, senão mesmo da discografia do músico galês; é uma montra de melodias e arranjos (de bateria, baixo, órgão, pingos de guitarras eléctricas, uma forma – a sua – característica de cantar…). Este é também o disco onde as duas mais belas canções de Cale surgem: primeiro, “Hanky Panky Nohow”, um delicioso mel feito canção – exercício de guitarra acústica e voz decorado com cordas -, e “Andalucia”, a MCdM (melhor canção do mundo), perfeita, complexa e simples ao mesmo tempo, triste e alegre… um oxímoro, portanto. Em “The Endless Plain of Fortune” (ponte que liga as duas imediatamente antes citadas), ligeiro drama, momento em que a fraca produção do disco é mais óbvia, somos confrontados com um poderoso glam onde desfilam numa pose imperial, com marcha marcada pela bateria, orquestra, guitarra e piano até ao fade out. “Macbeth” é um rock quase clássico que antecede a faixa com o título do álbum, “Paris 1919”, empolgante tema, recheado de pormenores que adornam o ostinato em que se baseia. A última faixa do álbum – que sucede a riquíssima em efeitos “Graham Green” e a invernal e avassaladora “Half Past France” (“We’re so far away / from home / where we belong”) – é um epílogo, um sussurro, literalmente, com que se dá por terminado o que ainda agora acabou de começar. Tantas coisas boas na vida passam depressa, Paris 1919 também.

Foi uma gravação marcante e influente, e muitos dos grandes têm noção disso (note-se, por exemplo, a extraordinária rendição de “Andalucia” pelos Yo La Tengo, banda única e inultrapassável do rock independente). Há praticamente 40 anos gravou-se um tratado de melodias que fogem à tradicional estrutura de canção pop e deram um dos mais fortes contributos ao trilhar do início do caminho que é uma das mais meritórias, interessantes e, diria, sem medo, criativas formas de arte – a alternativa. John Cale pode não ser uma estrela (embora, convenhamos, também não se saia mal), mas é um artista extremamente interessante, mesmo como personagem, que vale a pena explorar. Toda a sua discografia, mesmo que esta seja extensa e nem sempre homogénea (qualitativamente). E no fim, bom, no fim faz-se sempre justiça, e os grandes terão sempre um lugar distinto na História.

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