Ainda sobre Shame

Posted on Abril 9, 2012 por

0


Diz um.

«Gosto do que escreveste e algo disso é verídico, mas eu não achei nada de extraordinário. O filme é bom mas é para se ver muito atento, provavelmente no cinema. A produção é muito boa, especialmente em algumas cenas.

Shame

Shame (2011)

Para mim é genial a cena dele a jantar com a preta, numa tentativa de ser normal mas sem qualquer interesse por ela, nem ela por ele, a apressarem o momento para chegar ao ato enquanto são constantemente interrompidos por um gajo, o que sereve à mesa, que tenta que eles tomem decisões sobre uma série de coisas para as quais eles se estão completamente a cagar. Mas, de resto, o filme pareceu-me exageradamente gráfico.

«é aquele novo tipo de filme que não te conta nada para deixar a história por tua conta e risco, tipo desenrasca-te.»

Exageradamente gráfico porque, na minha opinião, era desnecessário, já que um bom guião pode-te levar ao mesmo sítio sem necessariamente ter (tantas) cenas pornográficas. Em termos de argumento não há lá quase nada – quase nem existe, não tem história; é aquele novo tipo de filme que não te conta nada para deixar a história por tua conta e risco, tipo desenrasca-te. Isto a mim não me chateia, até acho giro, mas, com um argumento tão pobre, o que conseguimos imaginar ou criar com base no que nos dão é, também e por consequência, pobre.

Acho que o gajo faz um bom papel mas não o considero genial. Trasmite-te o sentimento de angústia mas nunca chega ao desesperante (que talvez seja o que devesse ser trasmitido). A imagem pareceu-me fantástica (ou a fotografia, isso) mas sozinha não faz um filme.

Enfim, gostei mas não achei nada de genial. Pareceu-me mais uma tentativa exagerada de atingir a arte abstrata mas de uma forma incrivelmente gráfica, o que talvez vá, em muitas cenas, contra o próprio conceito. E há cenas que duram tanto… tanto, tanto, e o problema não é demorarem, é que demoram sem me deixar, a mim, com o tal sentimento de desespero ou com uma “revelação” no fim que justifique a demora.»

E diz o outro.

«Sim, eu percebo o que tu queres dizer mas acaba por ser precisamente tudo isso que me fascinou. Não é um filme que te conte nada – é verdade, o guião em si não conta história nenhuma – mas acho que faz um retrato tão bom de um personagem, principalmente em termos psicológicos, que adorei.

Shame

Shame (2011)

Depois, gostei disso do grafismo, do cinema-arte, do tentar ser bonito e sê-lo, de se filmar bem, dos pormenores, a cor, a luz. Achei artístico, gostei do toque. Embora, claro!, não é isso que faz um filme.

Das cenas lentas, pá, é capaz de ser do que mais gostei ou o que mais me surpreendeu. Se calhar se não foste ao cinema pode ir um bocado por aí, porque no cinema aquilo é em formato gigante, e se às vezes isso é indiferente, aqui o pormenorzinho minúsculo, belo, é do tamanho da tela do cinema; o silêncio é do tamanho da sala do cinema; a luz chega-te através dos dez metros da tela do cinema, ela a cantar enche uma sala de cinema, é tudo a uma escala gigante que lhe fica bem, que acaba por potenciar o tal sentimento de desespero, o ouvires o gajo a respirar, o plano a focar-lhe a cara que é do tamanho do ecrã inteiro… eu gostei.

Adorei a cena do elevador no final, por exemplo, em que eu sinto o desespero do gajo e fico ali à espera, a desesperar também tanto tempo quanto ele. Num outro filme a cena do elevador ou demorava um segundo ou nem existia, sequer: entrava e saía. Tu, ali, entras e ficas lá, à espera. E é assim em várias cenas do filme, como nos silêncios chatos e constrangedores de algumas conversas.

«Aqui não tens que imaginar nenhuma história nem nada. Está tudo ali, cru, nu, tudo à tua frente, e é o que é: zero história, uma personagem.»

O guião podia pedir-te para imaginares mas acho que não quer ir por aí. Acho que simplesmente pinta para ti um quadro psicológico de um tipo, com exemplos gráficos, bonitos – talvez no sentido mais técnico, seja. Aqui não tens que imaginar nenhuma história nem nada. Está tudo ali, cru, nu, tudo à tua frente, e é o que é: zero história, uma personagem. Chega para mexer comigo, que sou fácil.

Podia não exagerar tanto no sexo, é verdade, e quase que acaba por parecer o único recurso que o realizador tem para te explicar o transe do Brandon, mas também é tipo assinatura do filme, que é sobre sexo e ponto – sexo sem banda sonora, que faz suar, forçado ou em esforço e que cansa, sem nada de amor: pára o som-música e ouves o som-guinchos e o som-ruídos e o som carnal, do corpo a bater no corpo, ambos transpirados e tensos, e já está.

É que o filme é capaz de ser quase-nada, mas achei espetacular. A mim surpreendeu-me. Basicamente concordamos os dois naquilo que o filme é mas temos opiniões diferentes ou gostos diferentes, neste caso. Valha-nos isso.»

a

Fotografias: IMDb

Tagged: