Quanto é que não se lhe deve?

Posted on Abril 11, 2012 por

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Quando até Ele o reconhece, quando a reação imediata – imediata – a mais um golo (e já lá vão mais de sessenta) é procurá-lo para prestar reconhecimento (ou vassalagem, que entre os grandes é selada com um abraço),

Quanto é que o futebol de hoje não lhe deve?

«Vuelve el Dream Team. Juego.» diz Iniesta ao irmão de Guardiola a 28 Fevereiro de 2007, antes de entrar de início num Zaragoza vs Barcelona iniciado em 3-4-3

A minha primeira vez com Iniesta leva-me a 2006 – concretamente, depois de umas pesquisas, a 28 de Março desse ano. O Benfica recebia em casa o Barcelona, nos quartos-de-final da Liga dos Campeões desse ano. Lembrar 2006: o verdadeiro “regresso ao futuro”. Nessa altura, com cabelo e cara de miúdo, ainda  usava o 24. Provavelmente, Andrés Iniesta terá sido o melhor 24 de sempre.

Andrés Iniesta vs Benfica

Andrés Iniesta vs Benfica, a 28-Mar-2006 – Foto: Miguel Ruiz (FCB)

Sem ter revisto o jogo, a ideia que ficou foi a de um jogador enorme, naquele metro e meio franzino e frágil; maior – nem que, naquela altura, só em potência – que Ronaldinhos e Decos, Larssones e Eto’os. Iniesta começava a desbravar o caminho para o novo futebol, para um futebol jogado de uma nova maneira. Com apenas 21 anos, era mais rápido do que Deco a pensar e a executar conforme decidido; mais pragmático do que Ronaldinho a transportar a bola e com mais critério na altura do arranque em progressão. Pega na bola e sabe para onde ir ou quanto tempo ficar, a quem a dar de seguida e como fazê-lo, onde ir após o passe para ser o primeiro ou o segundo apoio. Com 21 anos já sabe tudo sobre o jogo e apresenta uma fluidez incrível, fácil, harmónica; com verdadeiro perfume. Volvidos os anos que entretanto passaram, Iniesta afirmou-se enquanto jogador total, dentro do futebol de posição. Expoente máximo da loucura.

Uma habilidade extraordinária para decidir de forma rápida e decidir bem, aliada a uma capacidade de execução ímpar, elevam o espanhol a um nível parvo de imprevisibilidade, àquele em que a questão não é ser-se capaz do melhor e do pior, mas sim ser-se capaz do melhor, sempre. É dos poucos. É a vitória da inteligência em cima do campo, essa sim a grande diferenciadora dos pré-destinados. Sempre no sítio certo, sempre para o sítio certo, sempre da forma mais acertada – e sempre à velocidade da luz, para executar à velocidade ótima.

«Iniesta es el Messi de las sombras.» (Martí Perarnau)

Perceber a dimensão de Iniesta passa por perceber o verdadeiro conceito de criatividade no futebol. Xavi vem descobrir e aproveitar todos os espaços que, continuamente, os seus colegas criam à sua frente. Xavi orienta, marca o ritmo, assume-se enquanto circuncentro, mas quanto da qualidade (e não percentagem de êxito) do seu jogo não passa pelo que se cria à sua frente, pela qualidade dessa constante (re)criação?

Andrés Iniesta, o criador-referência, o do toque sublime, sempre-fino, desequilibrador por natureza mas pela calada. Não interessa chamar a atenção, é mais se perguntarem não digas que fui eu, ou diz mas diz também que não foi nada de especial. É uma maneira de ser; de ser para criar, criar obras de arte como quem prepara o lanche para o filho e lho mete na mochila, embrulhadinho, como quem não pede nada em troca e ama genuinamente o que faz. É lamechas, mas é tão verdade.

Messi e Iniesta

Messi agradece a Iniesta, 10-Abr-2012

Perceber que Messi entende tudo isto, que reconhece em Iniesta o valor infinito que este tem, e que, também, sabe ser ele o único ali mais próximo do seu nível faz do argentino, ainda mais, o melhor jogador de todos.

Iniesta veio salvar Xavi e dar-lhe a continuidade de que precisava, para ser a principal e menos reconhecida referência do novo futebol. É o upgrade, vá. Iniesta joga à bola em silêncio, contagia e assume-se líder desse silêncio, em silêncio. É o Messi das sombras. É o que há de mais próximo do futebol total. Andrés Iniesta, inigualável e sem comparação.

Nota: este texto foi pensado após o Barcelona – Getafe de 10 de Abril. No lance do golo de Messi (link), não há palavras para a beleza que é a criação em estado puro.

A mudança de velocidade de Iniesta para o espaço, mínimo, entre linhas; o receber e dominar uma bola e entregá-la jogável com um único toque, o toque do artista, e num movimento não coincidente – quase oposto – com o do passe recebido; o prosseguir o movimento para, já sem bola, estender a passadeira vermelha até à baliza, retirando qualquer oposição e transformando definitivamente o gesto anterior numa assistência.

Mais uma vez: tão “assustador” quanto tudo o que fez Iniesta é o facto de Messi ter percebido exatamente o que se estava a desenhar, e agido em conformidade. É por estas que nem há discussão.

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Fotografias: 1, 2

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