O esforço para gostar: The Shins — Port of Morrow

Posted on Abril 28, 2012 por

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A minha “relação” com os Shins começou algures em 2008, com o relativamente recente (na altura) Wincing the Night Away. Nesses tempos, a quantidade de bandas novas que conhecia era extremamente reduzida, não acompanhava qualquer espécie de imprensa musical e o conjunto de referências que possuía era pouco vasto – ainda menos vasto que hoje. À data adorei o disco. E adoro. Da mesma forma que adorei – como não – “Garden State” que vi pouco tempo depois e, de seguida, os dois primeiros álbuns, os melhores, dos Shins. Foram passando os anos, foram aparecendo novas bandas, novas pessoas – uma panca pelos Coldplay aqui, a devoção eterna aos Radiohead ali, o deslumbramento do jazz, alguma música popular portuguesa pelo meio e, sempre fundamental, o fascínio pela exploração do universo das bandas que chovia na minha vida com discos novos quase todos os dias. Embora o gosto varie, “evolua”, se abra, muito pouco do passado é descartado, o que faz disto tudo um processo nitidamente cumulativo.

Foi como descrevi que chegou o lançamento do primeiro single da banda de James Mercer (de cuja formação original só sobra mesmo ele, e inclui agora, entre outros, Joe Plummer dos Modest Mouse) após o lançamento do disco de 2007, agora penúltimo. E o meu primeiro contacto com “Simple Song”, o título do single que é segunda faixa de Port of Morrow, deu-se nas seguintes circunstâncias: chegar a casa tarde e cansado, depois de um exame que correu mal – e eu sabia que tinha corrido muito mal –, ligar o computador, ver a tão aguardada notícia e ouvir. Depois de partilhada a informação com quem de dever, ouvi mais uma vez. E tantas outras. Parecemos putos. Malhão do caraças. Nem todas as enormes canções dos Shins (especialmente a maioria das de Chutes too Narrow que é bem capaz de ser o melhor disco deles) são desse estilo, mas algumas são: “Caring is Creepy”, “Kissing the Lipless”, “Australia”… até a electrónica aparentemente aleatória parecia ser algo que Mercer sempre quis mas nunca teve naquelas condições. A bateria totalmente modest-mousiana de Plummer, a letra e a melodia, claro, a melodia. Foi entrar em grande no Delorean. E desde aí convenci-me que era impossível ter um disco menos que genial. James Mercer, filho adoptivo da escola de Portland, OR, continuava o génio do “‘tou-me a cagar, toma lá pérolas” [J. Martinho @ Internet, 2011].

Por falar em “Portland, OR”, o disco foi mais ou menos saindo aos bocados, canção após canção, e uma das reveladas foi outra grande música do LP, “Bait And Switch”, com um bom videoclip gravado precisamente em Portland. Parecia estar tudo bem encaminhado, se esquecermos o impacto de, pela primeira vez na vida de alguém que adora Shins, ver sair um lado b COMPLETAMENTE irrelevante como “September” (guitarra acústica que perde tudo ao tentar dum modo trapalhão disfarçar o decalque óbvio da cantiga saída dos auscultadores da Natalie Portman). Mas, tirando isso, estava tudo bem – também antes tínhamos uma faixa descartável em cada álbum –, e, entre tanto concerto acústico, até “It’s Only Life”, leakada em versão acústica no Youtube, parecia uma canção linda. Que é. Aliás, mais ou menos.

Continuo, felizmente, a ter a sensação de que para Mercer é difícil cantar um tema que não seja bonito. Mas o que é que aconteceu aos arranjos? Baixos e baterias banais. E as letras? “Is it all so very simple / And horribly complex? / You suffer in a thimble / And there’s nothing coming next” (na terrível “40 Mark Strasse” – quem não entende que é a pior canção deles de sempre não percebe nada), a sério?!

É quase escusado dizer que quando ouvi o álbum pela primeira vez tive um misto de sentimentos. Por um lado a alegria ouvir no conjunto “Simple Song”, “Bait And Switch”, “No Way Down”, mais ou menos “For a Fool” (que tem o toque mágico no início mas não é The Shins como eu adoro, daí já me fazer torcer o nariz) e, também mais ou menos, “It’s Only Life”, que com a banda parece ter um acompanhamento igualmente saído do mais NQS (*) de qualquer disco “rock” de Jorge Palma. Por outro lado, o início que nunca chegará a causar a bellyache que “Sleeping Lessons” (e estou a mencionar só a abertura de álbum dos Shins menos boa até aí) ainda hoje causa, ao fim de dezenas e dezenas de escutas; ou “The Rifle’s Spiral”, o fim que é triste por não deixar saudades do álbum como deixa “A Comet Appears” (uma das melhores canções “calmas” deles, que não é uma balada!!! que, repito, não é uma balada!!) na faixa título. De repente, a banda de indie pop que nunca fez uma canção que motive um isqueiro no ar ou aqueles parolos braços a oscilar lateralmente por cima da cabeça tem três ou quatro canções – “Fall of ’82”, uma canção de merda – no seu disco que podiam fazer soar, antes do refrão, um valente “TODOS!”. Claro que é uma pena.

Trata-se, claro, dum esforço de alguém que adora os Shins, para gostar do disco, um disco que é uma ruptura triste com um passado brilhante, de letras deslumbrantes e melodias que ouvimos incansavelmente, sempre à procura de resposta a dúvidas existenciais bem mais sérias que naïve. E encontramo-las sempre, em Oh, Inverted World, em Chutes too Narrow e mesmo em Wincing the Night Away. Mas não em Port of Morrow. Felizmente, os alinhamentos da digressão trazem algumas das melhores canções do passado e parecem tirar o melhor partido possível do último álbum. E, finalmente, poderemos vê-los em Portugal, em Julho, no festival Super Bock Super Rock.

(*) Ninguém Quer Saber

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