Passar fatura

Posted on Abril 30, 2012 por

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É português dizer-se que um homem muda de casa, de carro e até de mulher, mas nunca de clube.

Esta premissa fundamental do nosso país, incompreensivelmente esquecida na Constituição, parece ser posta em causa nos dias que correm. O sinal de perigo veio das celebrações manifestadas por vários sportinguistas após a consagração do FC Porto como bicampeão nacional. Dúvidas existenciais em massa? Promiscuidade?

Como sportinguista que sente um lume de satisfação – ainda que longe de ser capaz de pegar fogo a um naperon que seja – com a vitória do Porto em detrimento do Benfica, sinto-me desconfortável com estas indagações. Ambiciono explicar-me numa linguagem que qualquer adepto de futebol compreenderá por certo: mulheres.

Não, não vou comparar adeptas. Até porque, para mim, a Lioness Queen Isabel Figueira tem um estatuto intocável. Na verdade, até vou ser contraproducente porque não vou falar de bustos, mas sim de personalidades. Que desagradável, eu sei. E aborrecido. Mas vai ser mesmo assim.

Os clubes também têm personalidade. E os três históricos são muito diferentes nesse aspeto. Isto é como eu os vejo e tão certo quanto o triunfo do Porto é haver quem discorde por completo. O Sporting é aquela mulher sóbria, humilde e completa, com a qual não tenho dúvidas de que quero passar o resto da vida. O Porto, por outro lado, é a mulher altamente competitiva, munida de uma autoconfiança à prova de bala, mas que não toma nada como certo e exige o melhor de si mesma. O Benfica tem semelhanças, mas acaba por ser aquela mulher garganeira, cuja autoconfiança é mal direccionada para autogarantia – também à prova de bala. Que espera sempre que o mundo lhe caia aos pés e ofende-se toda quando assim não sucede.

Passar faturaPara mim, esta diferença fundamental fica evidentemente patente nos confrontos diretos, em que o Porto procura ganhar e não espera que a vitória acabe por aparecer, como se de uma ave se tratasse. Mas mesmo ao longo do campeonato sente-se que o Porto odeia perder e que o Benfica tem mau perder, se é que se percebe a distinção. Há uma frase de Mourinho (quem mais?) que já é de 2003, mas que ainda espelha a forma de estar do Porto. Foi após a derrota com o AC Milan para a Supertaça Europeia e o treinador disse que “o próximo vai pagar a factura”. Na altura, fatura ainda levava C e o próximo não foi o Estrela da Amadora. Foi o Sporting e levou com 4-1. Todos se queixam de arbitragens, do calendário e da taxa de literacia nas Bahamas, mas só o Porto parece crescer com a frustração, quase como se se autoflagelasse até ao jogo seguinte. Só o Porto parece compreender que a sua própria atitude é a chave para o sucesso, e não apenas “ser o Porto”. Em condições normais, ser o Porto é suficiente. Mas porquê depender das “condições normais”?

Isto é sexy. O inconformismo, a ação em vez da reação, o procurar os objetivos em vez de os esperar. O autogarantir-se em vez de se sentir autogarantida. Por outro lado, dá-me um pequeno e secreto gozo diabólico quando a garganeira cai do pedestal. É isto que sinto em relação aos clubes portugueses: uma relação duradoura e sentida com o Sporting que não troco por nada, uma atração ocasional fulminante quando o Porto põe o seu vestido mais atrevido e aversão ao Benfica, por muito bons atributos que tenha – e tem, pois.

Isto, claro, explica a admiração, não extensível ao Benfica, de um sportinguista pelo Porto, e não de todos. Ressalvo isso e que toda a caraterização feita acima se refere aos clubes em si, nunca aos adeptos.

Em nota de fecho, espero que, nesta nova temporada, o Sporting também comece a passar faturas e a cobrá-las impiedosamente. Que franza as sobrancelhas e, com um caminhar confiante e determinado, deixe toda a gente rendida e em perseguição atrás de si.

Posted in: Desporto