Nunca mais é sábado

Posted on Julho 11, 2012 por

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“More productive. Comfortable. Not drinking too much.”

Já mal consigo estar sentado. Cinco minutos de seguida, porra, nem cinco minutos. Abro páginas novas, e abas novas, e todas vazias. Abro por abrir. Mais nada. E passaram quê, trinta segundos. Nunca mais é sábado.

Sábado eu sei que passa num instante. Sei que vou acordar tarde e que as tardes de sábado passam num instante. E à noite. À noite é num instante, também, então. A meia-noite ao sábado parece que chega mais cedo do que nos resto dos dias, portanto não estou preocupado. Não vou ser boa companhia nessa noite e também não me apetece fazer nada de mais para que no dia seguinte não fique a achar que foi dinheiro deitado à rua. Só quero que passe, tipo pegar e mandá-la lá para trás. Não quero saber de ti, já disse.

Talvez me apeteça sentar-me calmamente, com um bom copo de vinho – que também é importante, não vá o vinho não ser nada de especial – e falar. Só. Sou mais do tipo de antecipar grandes datas com noite mais calmas. Prefiro receber o dia de anos tranquilo e com a mania que sou artista, que tenho conversas de homem e que eu é que sei, que sou bom nisto. Antigamente é que na véspera de natal era uma correria pelos corredores, aos gritos e não sei quê; ou em Santos na véspera de celebrar os dezassete anos.

(Foi em Santos?)

Pois.

Hoje o que custa a passar não é a véspera, são os dias todos que existem até lá chegarmos. Quando já só faltar um dia e se esse dia for sábado, espetáculo. Hoje é que estou para aqui, a deambular por aí sem poder sair do mesmo sítio.

Aqui há uns anos tive umas “vésperas” tramadas, antes de fazer dezanove. Faltava tipo uma semana e eu estava a regar. Não há nada que passe mais devagar do que regar e eu estava ali, a sentir que estava a perder tempo. Porque o tempo, perder, perde-se; o pior é quando sentimos que estamos mesmo a perdê-lo.

E às tantas lembrei-me do meu irmão a dizer não podes fazer dezanove anos sem teres ouvido ainda OK Computer, não podes, estás a perceber, não podes. E calha bem que até trouxe o mp3 cá para baixo portanto deixa lá ver se é assim tão bom.

Jesus. 

Acho que nunca tinha ouvido nada tão… tão. Tinha mil instrumentos – ou mil sons – e eu não fazia ideia de o que é que estava por cima ou mais ao fundo ou sei lá. Era uma coisa que enchia, que me encheu por dentro, que tocou de dentro para fora como se estivesse a gritar e a pedir para sair e não pudesse. Pá, mas batia tudo certo. Intenso, bonito. Sabia bem. Eu não percebo nada de música mas aquilo tinha que ser bom. Aquilo é que é ser bom. Aliás, até quero lá saber, embora fique bem dizer que se gosta, eu gosto e pronto.

Domingo vou ouvi-los e vou vê-los e, embora não me pareça que vá acabar a noite em posições estranhas na Vito que os levar de volta para o aeroporto, vou também senti-los. Radiohead em Lisboa. Até tremes.

Quero ir cedo só para ficar com a sensação de que já falta menos, mais do que para ir lá para a frente para o meio da confusão. Dispenso a confusão, mas lá à frente também se ouve com mais força e somos engolidos pelos que lá estão para o mesmo que nós, e isso faz parte. É tipo um orgasmo, com aquele efeito dominó tão típico, e tenho medo de ficar lá atrás e só ficar com os restos, de já só ficar com aquela parte em que sabe bem mas passa depressa e queres mais mas já não dá.

Sei que se não abrir os olhos os vou ver à mesma, ou até melhor, porque há sempre o cabeçudo que mete a namorada aos ombros mesmo mesmo mesmo à tua frente naquela parte do refrão. (O gajo também mal abre os olhos e é o melhor do mundo.) Sei que é lá no meio que dá para se ser invadido pelo grave da Karma Police e que vai saber tão bem sofrer, que com aquilo sofre-se pese embora o sorriso que se vai formando e rasgando sozinho.

(Rasgando sozinho. Ouçam.)

Não podes fazer dezanove sem teres ouvido ainda OK Computer. Já está quase.

a

Fotografias: 1, 2

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