O amor em The Shins – crónica (nada imparcial) no SBSR 2012

Posted on Julho 14, 2012 por

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Ninguém diria que, mais de dez anos depois de lançar o primeiro disco (com uma formação herdada dos Flake Music, a sua primeira banda), um dos melhores do grupo e da década de 2000, e no ano em que edita (com um conjunto de músicos totalmente diferente do primeiro) Port of Morrow, longa-duração duvidoso, sofrível e/ou decepcionante, James Mercer, a alma e essência dos Shins, banda de indie pop colorido, melódico, soalheiro, balsâmico e de soberba qualidade, estaria na sua melhor forma de sempre. Mas está. Asseguro-vos.

Foto: R A D A R

Quando vêm tocar pela primeira vez em solo nacional, os Shins fazem-no no Super Bock Super Rock, a fechar o palco principal, no último dia. Não se esconda a verdade: certamente em termos relativos e provavelmente também em termos absolutos a plateia do palco Super Bock, que tardava em compor-se minimamente até ao começo do espectáculo da banda norte-americana, estava muito mais vazia que a do palco EDP – onde tocariam St. Vincent, nome artístico de Annie Clark, uma das grandes, exímia guitarrista, autora de um dos melhores discos do ano passado, repetente no Meco (esteve na primeira edição lá realizada, em 2010) e sempre bem sucedida em terras lusas e, seguidamente, Regina Spektor. Mais a mais: não há fãs de Shins em Portugal – não como de The National ou de Arcade Fire, por exemplo, duas bandas com uma fidelíssima fanbase no nosso país, capazes de arrastar massas a qualquer festival e esgotar as mais importantes salas de Lisboa e Porto. Felizmente, isso não impediu o que veio a seguir, não tocaram para o vazio e, notava-se (mesmo de uma localização mais de groupie que de jornalista), que o concerto estava a impressionar leigos. Não era para menos – estavam a ver os Shins.

Uma das principais graças da nova formação da banda é ser constituída por músicos de elite – o baterista dos Modest Mouse, Joe Plummer, exímio e, afinal, membro de uma banda fulcral na escola musical de Mercer; Richard Swift, arranjista notável da cena americana e óptimo músico de palco; a deslumbrante, belíssima Jessica Dobson, a tocar com classe jesusandthemarychainiana uma Jazzmaster e a entoar coros dissonantes; e um baixista tão competente como simpático, além do versátil músico de apoio que levavam – e aproveitar isso para re-arranjar todo e cada compasso do repertório passado, deixando imaculado o seu encanto. Não é fácil e seria ainda menos esperado depois da desilusão que foram as novas canções gravadas num disco sem espírito, sem conteúdo, sem letras e sem melodias.

O concerto propriamente dito foi uma exposição duradoura e reconfortante de uma década de música, a ter início onde tudo começou: “Caring is Creepy”, numa descarga de energia brutal, deve ter causado um impacto tão intenso nos que não conheciam como uma emoção tremenda nos poucos que lá estariam que sabem que ali há um poema, há uma voz que nos faria sorrir no pior momento da nossa vida, como quem decreta que “nunca teve frio”, mesmo “sem vestir nada na neve”.

Tudo isto, porém, para dizer que o grande trunfo do espectáculo foi o equilíbrio entre a apresentação do disco de 2012 (Port of Morrow), beneficiando do “efeito rock ao vivo” aliado a uma escolha feita quase com pinças do melhor e do menos mau que este tem – “Simple Song” a parecer tão boa como qualquer single que o grupo de Portland já editou –, e as canções dos anteriores Oh, Inverted World – uma “New Slang” que, Mercer sabe-o, puxou uma lágrima aos que ali vêem as suas memórias e a espera da garantida mudança de vida que a canção deveria desencadear reflectidas –, Chutes too Narrow – é possível tornar a inventar “Kissing the Lipless” deixando-a tão maravilhosa como sempre foi – e o parece que incompreendido, mas magnífico, sob todos os aspectos, Wincing the Night Away – como é que se conserva, mudando tudo, aquela voz em “Pam Berry” que anuncia o malhão power pop que é “Phantom Limb”?

Pelo meio ouvimos, neste padrão, mas por outra ordem, uma “Australia” (*tosse* quase brit *suspiro*) que fez o que nenhuns Strokes ou Arctic Monkeys, naquele local exacto, conseguiram no ano passado, “So Says I” igual a si própria provando, sozinha (porque ninguém repara em mais), que James Mercer é um dos melhores letristas da história da música popular/alternativa anglo-saxónica quando aborda, carregada de metáforas, a temática do socialismo utópico, e, a propósito dele, uma “Saint Simon” soberba, linda sob uma fina camada de cordas, ou “Mine’s Not a High Horse”; “Know Your Onion!” que, ao fim de onze anos e de milhares de repeats, continua a ter uma eficácia inversamente proporcional à sua duração e, justiça lhes seja feita, “No Way Down”, “The Rifle’s Spiral” ou “Bait And Switch” até soaram bem.

Já o melhor momento ficou para o fim. Após os agradecimentos claramente sinceros ao público (afinal não seria assim tão pouco) e uma promessa de regresso, Richard Swift começa a tocar o arpejo inicial de “Sleeping Lessons”. Um arrepio na pele, um olhar expectante preso ao início (“A thousand diferent versions of yourself” – aquela voz!!) e a tensão a rebentar na bateria que coloca aquele pequeno ponto da Herdade do Cabeço da Flauta a saltar como se os conhecesse de sempre. Isto, meus amigos, é pop.

Esta banda merecia muito mais que o que teve. Na verdade, esta banda merecia muito mais do que o que tem. No entanto, a generosidade que aquele que realmente é os Shins, James Mercer, mostra quando apresenta as suas canções leva-me a pensar que, quiçá, a falta de gente na plateia para ver este concerto não tenha sido mais que uma demonstração de que o mundo é demasiado imperfeito para uma banda assim; o mundo talvez (ainda) não mereça os Shins.

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