Sporting base I: ou há ideia ou nada. Nada.

Posted on Julho 17, 2012 por

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Como já se defendeu, Alvalade sempre foi de aplaudir muito mais aquilo que faz menos sentido. Às tantas as pessoas nem dão pela contradição e fica bem dizer que isto e que aquilo, consoante. Não nos identificamos com as pessoas que bebem jornais e manchetes com a sede das ressacas, contando sonhar já tudo não vá o ano que vem ser mais um daqueles,

ou destes, que ainda agora os vivemos,

mas logo à superfície não enganamos ninguém com dois dedos de testa. Vá lá que não há é muitos. Identificamo-nos, sim, com promessas de um «Sporting a jogar à Sporting» que nunca vimos, e à procura deste conceito aceitamos de tudo um pouco e perdoamos quem só finge que o procura. Um «Sporting a jogar à Sporting» que prometia uma ideia que seduz mas que não se compreende. E se não se compreende, dificilmente poderá ser defendida senão cegamente – o futebol, ou falar dele, está sujeito à imbecilidade, embora talvez seja essa mesma a permitir que o mesmo não morra.

«(…) os palermas não gostam de futebol. Gostam das sensações que se habituaram a ter ao ver futebol.» in Entre Dez

Os mesmos que defendem a Bola de Ouro de carreira para Pirlo, movidos pela comichão daquele Panenka, são os mesmos que defendem Rinaudo a trinco no Sporting, Renato Neto na equipa B ou no estrangeiro para rodar e Gelson Fernandes como grande contratação porque veio a custo zero. Os mesmos que se “tremem” todos com o Pirlo são os mesmos que não reconhecem valor em Busquets ou os mesmo que André Martins, a trinco? És é mas é maluco! Este género de pessoas que prefere sustentar Elias, mesmo que para isso se tenha que prescindir de André Martins, Izmailov ou Matías Fernández, das duas, uma: ou é imbecil ou é imbecil.

Não está nem nunca esteve em discussão o valor individual de cada um destes jogadores, quando fechados a jogar à parede sozinhos numa arrecadação quatro por quatro sem balizas nem linhas de fundo. Está em causa o valor de cada um dentro de uma ideia, isso é que se discute!: quanto vale cada um no meio dos outros todos, dentro de campo?

Matías Fernández

Queremos o «Sporting a jogar à Sporting», como anunciou Sá Pinto, mas queremos Onyewu, Boulahrouz ou Xandão, Schaars e Capel na mesma equipa. Queremos jogar bem e prescindimos de Matías, may the next on the line be Izma, if you please. Achamos que equilibrar uma equipa é ter quem corra mais e mostre mais raça dum lado e quem faça cuecas de outro; ter matulões lá atrás e brincalhões lá à frente. Achamos que equilibrar uma equipa é isto mas gozámos todos com a Holanda do Euro, pelos vistos sem saber bem por que razão – porque houve quem se risse, ou porque aquilo era estranho, que era, mas fiquemos por aqui que não é preciso aprofundar no tema e espera lá que até já chegamos para os espanhóis.

Havia uma hipótese para brilhar na época que aí vem: André Martins, Izmailov e Matías. No meio, com espaço.

As ideias, como o Rui disse um dia, são o maior poder que se pode guardar. A ideia vale por si só e perdura se a ela confiarmos pessoas inteligentes. O melhor futebol do Sporting 2011-2012 foi, a espaços mas de longe, quando contra o Manchester City jogaram juntos Pereirinha, Izmailov e Matías Fernández. Num terço de campo fizeram o que muito poucas vezes foi possível fazer durante o resto da época. Nunca tanta boa capacidade para decidir esteve concentrada num espaço tão reduzido.

Havia uma hipótese para brilhar na época que aí vem: André Martins, Izmailov e Matías. No meio, com espaço. Ladeados de Pereirinha, Carrillo e Jéffren, por exemplo. Futebol com bola, sempre apoiado, curto e rápido, vertical e imprevisível, ultrapassador de etapas com inteligência, sempre da melhor maneira.

Futebol ofensivo, claro, mas provavelmente o melhor conjunto para jogar sem bola, também.

Conseguir desculpar a venda de Matías tendo fé naquilo que se está a “construir” é isso, é ter fé. E ter fé faz vibrar mais, faz-nos ir ao aeroporto às tantas da manhã e chegar roucos a casa depois de horas ao volante desde Bilbao, tudo bem; mas ter fé é ter pouco ou não ter nada, é não ter nada sólido em que nos apoiar para podermos respirar tranquilos. Ter que recorrer à fé será, entre linhas, ou não acreditar em mais nada do que na sorte ou não perceber nada do assunto – é ser imbecil se não se quiser, também, perceber.

Matías não vai para lado nenhum lutar por mais do que aquilo pelo que pode lutar no Sporting. Investisse-se a sério nisto e os prémios de assinatura por cada contratação que temos feito, ou os ordenados daqueles que, por bons que sejam, não têm cabimento lógico nesta espécie de projeto, pagavam três renovações ao chileno, mais mulher, cunhada, putos e vizinhos.

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Também desta série: Sporting base II: equilibrar

Fotografia: Mais Futebol

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