O Companheiro do Whisky

Posted on Julho 18, 2012 por

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O meu primeiro encontro com John Mayer aconteceu quase por obrigação. Foi, por isso, um pouco tímido, quase às escondidas. Sempre achei que o que ele fazia era, permitam-me a expressão, “música de gaja”. Ou de guitarrista – pelos benefícios de ser “música de gaja”. Se é que me faço entender. Foi, porém, graças a toda esta imagem deturpada que acabei por me deparar com ele.

Tinha uma serenata em mãos e uma jovem plateia feminina para dar a conquistar aos muchachos que viria a liderar numa esgrima apaixonada de floretes em clave de Sol. Decidi levar a confronto o John. Não conhecendo bem, tinha a tal referência de que teria a leveza e aerodinâmica necessárias para ser acutilante nos golpes, mas também gentil e elegante, com o fair-play que se exige.

A escolha, “claro”, foi Your Body Is A Wonderland. Ponho “claro” entre aspas porque, na altura e para o efeito, pareceu-me a escolha óbvia, mas hoje já não sei se manteria a escolha.

Isto porque conversa puxa conversa e, Covered in Rain entre luzes de Neon, acabei por ficar a conhecer muito melhor a história do John. E hoje é isto: ele é o John, apenas. Um porreiraço para quem, a qualquer altura, me posso voltar comentando quer «hoje o dia correu muita bem» quer «já viste esta merda, meu?», sabendo que, após o ouvir, chegará eventualmente o «é mesmo, pá».

Listen to John Mayer and keep calmO John é daqueles amigos a quem vale a pena oferecer um copo de whisky velho ou, c’os diabos, com quem vale a pena partilhar a garrafa toda. Um gajo que me entende. E não se comece já a pensar que isto é só porque ele fala como um senhor. Porque ele tem tiradas magistrais, sim, mas o que faz com meia dúzia de cordas também dá um mote e pêras para um serão de classe. Seja na simplicidade de Wherever I Go, seja na criatividade feroz à solta que abre caminho à versão ao vivo em Los Angeles de Neon, o John incorpora uma intensidade impressionante em cada instrumental, conseguindo até desviar as atenções do timbre de voz com que os acompanha. E isso não é fácil.

A verdade é que nunca consegui apreciar devidamente uma boa letra sem uma boa música. Para mim, a letra é um problema fácil de resolver: escreve-a tu. Afinal de contas, há mais palavras no dicionário do que notas musicais num instrumento. Mas, claro, não nego o luxo de ter tudo. Eis onde entra o John: no luxo, onde nada falta, tudo abunda.

Por tudo isto, hoje, quando o John me pergunta Who Did You Think I Was?, até me sinto envergonhado. E digo-lhe apenas o que Tony Bennett lhe diz em One For My Baby: «let’s have another drink».

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