Sporting base II: equilibrar

Posted on Julho 31, 2012 por

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Equilibrar. Médio-defensivo, equilibrar. Aceita-se mas, depois, também se ouve que sem bola há quem pressione e quem equilibre, e nunca mais pára. Começa a crescer a bola de neve dos disparates. Afinal o que é que é equilibrar?

Para uma maioria considerável, equilibrar será andar por aí e ser o vagabundo da equipa. É correr de uma ponta à outra o campo em horizontal e fazer um sem-número de recuperações de bola, de maneira vistosa se faz favor, tipo em carrinho e saímos a jogar. Equilibrar é ser raçudo e ir às dobras, mas ali no meio – um central que dobre um lateral faz boas dobras, um médio que dobre outro médio, ou até o mesmo lateral, equilibra a equipa. Equilibrar equilibram (só) os Gattusos, sim, que se for feio melhor.

Fora discussões maiores do que é ou devia ser o papel de cada um em campo, equilibrar é pôr em equilíbrio e ponto. É pôr mais peso de um lado para compensar o que está descompensado, ora puxa lá de uma balança. É harmonizar, não é fazer carrinhos nem fazer dez dobras por jogo. Equilibrar não é ser duro nem é exclusivo dos trincos, chamemos-lhes assim. Equilibrar? Equilibra dez vezes mais o Valdés no Barcelona do que o Elias no Sporting (e vai parecer logo que o estou a crucificar).

Victor Valdés

Equilibrar com e sem bola deve ser uma das responsabilidades chave a partilhar por todos os que formam uma equipa. Por estar no centro do terreno, por ligar setores, por estar mil e uma vezes em ação, o pivô acaba por ter que desempenhar essa tarefa mais vezes, ou pelo menos mais vezes “determinantes” para se poder jogar bem à bola. Normalmente equilibra melhor, nesta posição, quem dá menos nas vistas e quem é mais inteligente; quem percebe melhor o jogo.

Levantar um estádio com um carrinho impecável depois de uma corrida de vinte metros pode ser sinónimo de mau posicionamento, o que costuma vir aliado a uma leitura de jogo inferior e, por sua vez, a menos inteligência entre as duas orelhas do herói da bancada. Naturalmente, o mesmo lance pode também resultar de uma má decisão de um colega, do deficiente equilíbrio que este último deu à equipa no mesmo lance, mas segundos antes. Se eu tiver um tipo à minha frente que não cobre o espaço de forma lógica, e que tenta varrer o campo de uma ponta à outra em pressão constante para recuperar bolas sem critério, eu, que estou na cobertura, para tentar equilibrar as coisas vou virar um desses vagabundos, também; atrás de mim, é tal e qual: se eu corro de um lado para o outro, alguém tem que me estar a tapar de um lado para o outro. Está tudo encadeado e no momento em que isto não for mais possível, no momento em que se chegar tarde para equilibrar as coisas ou no momento em que não percebermos o quanto isso é importante, oportunidade de golo para o adversário, entre linhas no nosso meio campo.

Equilibrar depende de todos mas não é saudável ter destruidores num meio-campo que se quer de construção, porque a construção não começa só ali no oito. Nem sequer faz sentido abordar cada lance como se fosse o último, abandonando a posição só porque sim e porque somos mais fortes e mais rápidos. Se a aposta é em ter bola, temos que ser fortes a equilibrar com ela: o pivô faz de pêndulo e liga lados, liga jogadores, liga dois passes curtos como se parecessem um só, trazendo segurança a toda a manobra. Estar dois metros atrás da linha da bola em cobertura ofensiva é equilibrar; oferecer-se ao jogo com uma linha de passe que ainda não existia é equilibrar; receber e dar vinte metros para trás, movimentando-se para reiniciar tudo em melhor posição, é equilibrar.

Não deve haver ninguém no Sporting com tanta capacidade a todos os níveis para desempenhar este papel como André Martins. Com bola, um trio com ele, Izmailov e Matías, provavelmente os que melhor se posicionam constantemente dentro de campo em função do espaço disponível em cada momento e de cada situação de jogo, e os que melhor decidem e mais criativos são, seria fortíssimo a construir jogo. Ter vendido Matías foi desperdiçar uma oportunidade gritante de brilhar.

E sem bola? Precisamente por saberem estar onde têm que estar, disponíveis para perceber o jogo a este nível e criteriosos naquilo que fazem em campo, o espaço oferecido ao adversário seria sempre tão pouco, para jogar e avançar no terreno, que não seriam necessários carrinhos, sprints, porradas ou exageros que tais para recuperar as bolas que se têm que recuperar, no sítio certo e na altura certa. Com estes três, as poucas vezes em que não houvesse bola o adversário teria que recorrer aos corredores e aí é presa fácil. Estes são dos que sabem que para evitar um lance de perigo não preciso de recuperar uma bola nos limites nem levantar um estádio inteiro. Basta guiar o adversário para onde se quiser, fechando os espaços certos no meio e encurralando-o entre nós e a linha: aí, ou força e perde, sejam mantidas as coberturas, ou volta para trás. Equilibrar.

Xadrez

Se o Sporting apostar numa fórmula Rinaudo-Elias vai passar o jogo atrás dela: o argentino a tentar cobrir o brasileiro, que corre por aí sem critério desequilibrando a equipa, veneno que se acabará multiplicando por dois pelas ganas de ambos; com bola, um Elias pouco paciente e que não aparecerá para construir – sim para receber adiantado, cedo demais, por norma – não estará lá para apoiar Rinaudo e a bola cairá invariavelmente nas alas.

Coberturas ofensivas, zero. Defensivas, aguente o pulmão e o nervo.

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Também desta série: Sporting base I: ou há ideia ou nada. Nada.

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