Quatro maior que vinte e tal

Posted on Agosto 28, 2012 por

0


«O Rio Ave arranca de Alvalade a tal primeira vitória de sempre, mas fê-lo sem ter que recorrer à sorte – caminho que o Sporting escolheu e o único que teria justificado um resultado diferente, como pretendia Sá Pinto.»

1 – Domínio aparente mas pouco futebol. Esta tentativa de «jogar à Sporting» de Sá Pinto assume um piloto automático que conduz más ideias (ou nenhumas) para lado nenhum. Novamente, o treinador considera que tentaram de todas as maneiras chegar ao golo, embora já assuma que se passou ali qualquer coisa de estranho. Fica para ver depois se a análise é bem feita e se se vão corrigindo alguns problemas.

2 – O Sporting mantém-se no jogo com o tal domínio que é aparente porque, embora em posse curta, só o é no seu meio-campo, de um lado para o outro, sem avançar metros e sem nenhuma oposição. Quando é preciso sair dali ninguém sabe o que fazer. A tendência, mais uma vez, é optar pelos corredores laterais – bola no lateral, bola no extremo – e nunca pelo central, onde só de vez em quando aparece alguém a pedir jogo: Elias, sempre escondido; a Gelson não se lhe pode pedir mais, coitado. Quando não é pelos lados, é pelo ar e demora quarenta metros a chegar lá acima, onde espera, sozinha, Dona continuação nenhuma. Quer-se uma equipa preparada para as duas coisas, para o jogo curto e para o comprido, e por favor ao mesmo tempo se lhe der jeito.

3 – O meio-campo no mesmo triângulo da semana passada. A base em linha e o vértice lá da frente muito afastado, pobre Adrien. Elias mais solto mas nem por isso mais “segundo degrau”. Causa ou consequência, não se sabe, mas o jogo do Sporting nunca chegou ali à zona frontal da área vilacondense. E, quando chegou, foi para não dar em nada. Chega-se ali e não se sabe o que fazer senão rematar. Até Carrillo amuar e haver esperança, mas já lá vamos.

4 – O Rio Ave arranca de Alvalade a tal primeira vitória de sempre, mas fê-lo sem ter que recorrer à sorte – caminho que o Sporting escolheu e o único que teria justificado um resultado diferente, como pretendia Sá Pinto. Organizados e de lição bem estudada, oferecendo os flancos aos leões que é por onde não dói nada e cabeçada de frente para tirar as bolas da área. Foram ene. A sair, soube aproveitar o espaço que o Sporting nunca soube proteger, ou que deixava livre ao optar por jogar partido em continuum. Ainda assim, os quatro lá de trás bastante seguros a defender, regra geral, mas

5 – o duplo pivô do meio-campo mais uma vez lado a lado, e a defender, o que é estúpido. Não garantir coberturas ali no meio é facilitar a vida a quem vem aí; é deixar que, passando por um, se passe logo pelos dois; é obrigar o central a sair em cobertura e a deixar espaço nas costas. E é golo do Rio Ave. O jogo, em lances muito parecidos, podia ter acabado facilmente três ou quatro zero. Zero, que o Sporting, oportunidades assim, além de não as ter tido nunca as soube procurar. Vinte e tal remates e zero oportunidades de golo claras. Quatro maior que vinte e tal.

André Carrillo, Sporting vs Rio Ave

André Carrillo, Sporting vs Rio Ave, 27-Ago-2012

6 – A segunda parte trouxe um Sporting um pouco diferente e mais anárquico e, por estranho que possa parecer, quase que deu. Sá Pinto sabe que criou mais perigo mas não terá sido por onde ele quis nem pelo que ele acha que fez. Maior tendência para os extremos-do-papel jogarem de pé trocado – ou seja, maior tendência para vir para o corredor central, i.e. maior perigo – com Capel aberto à direita (longe de Insúa, vá lá) e Carrillo onde lhe apetecesse, mas surgindo mais desde a esquerda. No meio, André Martins sempre no sítio certo mas quase sempre sem apoios (para quê, então?), com Labyad mais preocupado em definir do que em criar. Quem fez de Labyad foi Carrillo e, quando isso aconteceu, Labyad esteve bastante bem. André Martins, o primeiro a iniciar o que quer que fosse, preocupado em não deixar a bola sair do meio, perfeito dentro dos possíveis, condenado a jogar sozinho no meio-campo e a só ter, demasiadas vezes, os centrais a quem dar a bola.

e 7 – Carrillo não teve continuação e, por isso, lembramos melhor as perdas de bola do que as iniciativas desesperadas em criar futebol. As diagonais para o meio, para a zona frontal da área, não tiveram quem saísse em apoio frontal ou quem quisesse combinar com o peruano. Ricky sempre em profundidade, mesmo em campo curto, e os extremos Insúa, Capel e Cédric com ordens para centrar ora sim ora também. Que falta faz Pereirinha. Carrillo acabou como centrocampista improvisado, rebelde por uma causa pouco compreendida pela maioria, o único com o feeling de que era por ali que ia dar golo, mas condenado pelo treinador a jogar onde houvesse vazio e, ainda para mais, condenado a ter pela frente quatro ou cinco amigos à espera que a bola lhes tabelasse num joelho.

a

2ª jornada da Liga portuguesa, Sporting – Rio Ave, 0 – 1, 27-Ago-2012

Fotografia: Mais Futebol

Posted in: Desporto