Chuvoso de barulho de fundo

Posted on Novembro 4, 2012 por

0


Fade in e ela entra em casa, sem paciência. Sem paciência, mas antecipa já toda a cena que vai fazer, e sabe que só vai ficar pior. Não interessa de onde é que ela vem, pode ser de um lado qualquer. Mas vá, imagina que é da rua e até pode ser que estivesse a chover e que ela, mal entre, toda apressada, repito, que quando nós não temos paciência pode-nos dar para a pressa e para fazer as coisas mal feitas, que ela mal entre atire logo as chaves para cima da mesa que está à entrada, à esquerda, e o guarda-chuva para o canto, para a esquina que surge depois de se ouvir a porta a bater. Tira assim tipo o casaco à balda, e atira-o para cima da cadeira que estava logo à entrada da sala. Fica pendurado e sossegado.

Ela não pára em nenhuma divisão mas tens que conseguir segui-la pelo corredor inteiro, até ela decidir parar. Tens que conseguir segui-la porque ela está com pressa e com ar de decidida, mas com má cara. Tem que se sentir que vai sair dali qualquer coisa, que interessa continuar com ela porque vai sair dali qualquer coisa.

Não tira os olhos do chão e o cabelo, comprido e molhado, assim um bocadinho, o suficiente, vai tapando-lhe os olhos e o resto da cara sem que ela o tire da frente. Ele também sai sozinho, à velocidade a que ela vai. É como se nem o próprio ar que a rodeia lhe acompanhasse o ritmo, ou a raiva, e quando vai e a tenta agarrar e puxar para si já só lhe apanha o cabelo. Consegue entrar no quarto e ir até à janela, mas acaba ali. Ali já só há a janela, e para lá dela nem se tem de ver nem interessa, porque faz de conta que são muitos metros até lá abaixo. É por isso que ela chega até à janela e dá meia volta, levando as mãos à cabeça, e dá mais meia volta até fazer tipo um barulho com os lábios, um daqueles suspiros cheios de força e de impaciência, a olhar lá para fora, em que os lábios tremem em conjunto enquanto os olhos, por norma, reviram para cima e as mãos descem pela cabeça a acompanhar o cabelo e param entre os ombros e o fim do pescoço, uma de cada lado. Mão na anca, e olha para baixo, e abana a cabeça a dizer que não.

Vai à mala, que tem que já estar em cima da cama, e abre-a. Abre-a sem jeito e procura dentro dela qualquer coisa, faz assim à mão como o gajo que procura qualquer coisa que lhe pedem numa mala que não é dele, claro, ou como quem procura um telemóvel que só vibra e que chama com insistência a pedido de alguém importante, numa altura importante. Enervada, lá tira o maço de tabaco e o isqueiro. Tira-lhe um cigarro, por cima da própria mala, e devolve o maço ao calhas para dentro dela outra vez e vem na tua direção. Começas a andar para trás e vê-la decidida assim, a vir na tua direção, como se fosses o culpado daquilo tudo. Tenta apanhá-la de baixo para cima, com ela a crescer de cada vez mais perto que está, mais ou menos, porque mesmo em cima de ti, na curva para a cozinha, zás!, voltas a subir e a acompanhá-la de costas até ao fundo outra vez, até esta outra janela, a ficar mais pequenina de cada vez mais longe que está.

Ela pensa antes de o acender, e geme. Deve ser gemer, sim. Geme com raiva, de dentes cerrados, para lado nenhum. Ela é como se fosse bater o pé com força suficiente para atravessar o teto do vizinho de baixo, mas não bate. Não precisa, basta parecer que é com essa força toda. Cigarro na boca, e acender. A primeira vez é só para puxar o lume e a segunda já se ouve, no meio daquele silêncio todo. A nuvem forma-se devagar e ouve-se o fumo a sair com imensa força. Outra vez, exatamente igual, a olhar pela janela, entreaberta, mas meio ofuscada pelo próprio reflexo. Tinhas que apanhar isto.

E quando o fumo da segunda vez assenta, quando ela já voltou a respirar sozinha e já está preparada para continuar, podes parar. E fade out. Está mesmo ali mas é impossível lá chegar.

a

Imagem: Rolan Gonzalez

Posted in: Desagarrado