Sobre Scolari, talvez

Posted on Novembro 18, 2012 por

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Talvez, porque pode ser aplicável a uma série de outras ideias mal concebidas. Talvez, porque a conclusão Scolari é bom, mudando-lhe o sujeito aqui e ali, é usada com frequência a mais e critério a menos. Já vale tudo, às tantas.

Contra factos não há argumentos! Um selecionador que em quatro grandes competições a nível de seleções se limitou a ganhar um mundial, a ir à final de um europeu, a ir às meias de um mundial e a ir aos quartos de outro europeu, tudo em anos seguidos…

Dizer uma coisa do género e, ainda por cima, opiniar que nas seleções o mais importante não é a tática, por exemplo, nem o treino, nem os vinte e três que se convocam, é defender, então, mesmo sem o querer admitir, que entre um selecionador ou um Tomaz Morais não há diferença absolutamente nenhuma – que um Tomaz Morais, com um gajo por trás que lhe dissesse Olha, joga este e aquele, obtinha, no mesmo contexto, os mesmos resultados (ou muito parecidos). Que a única diferença entre os dois for escolher melhor o onze inicial.

Mas à parte, que isto pode ficar para depois.

«Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá.» (Fernando Pessoa)

Contra factos é que deve haver argumentos, pá. A ideia não é minha, mas é fácil de perceber. Nada é como se dá. Nada se pode interpretar pelos factos como se deram, já dizia o Fernando. Os argumentos é que são verdadeiros, muito mais verdadeiros que os factos. A lógica é que deve ser o critério da verdade, e é nos argumentos que pode haver lógica, não nos factos. Lá está, a ideia não é minha e é fácil de perceber. Argumentos, veem-se muito poucos. Um argumento basilar, sei lá, o de que Scolari tem grandes qualidades de liderança, e que foi graças a elas que tivemos aqueles resultados. De resto, não é costume ver-se mais nenhum. É pouco e é ouco, um teto falso.

Nenhum facto pode ser auto-explicativo. Scolari não pode ser bom porque ganhou. Não! Eventualmente, ter ganho é o resultado de uma série de coisas,

«São só coisas…»

mas nunca o resultado de uma série de factos, de resultados. Resultado de resultados. Aliás, os factos, em si, são pouco relevantes e quase que nem existem, se quiseres. O facto não é mais do que uma interpretação, e é contra os factos que devemos apresentar argumentos, salvando-os do não ser nada. O resultado da lógica que ligar esses argumentos é que poderá ser, enquanto sua interpretação, um facto – mas só até haver quem interprete tudo de forma diferente. Os factos não têm lógica nenhuma! Os factos, em si, são um vazio de conteúdo.

Vazio

Primeira página de resultados no Google para “vazio”

E, posto isto, defender ideias com base em factos será muito arriscado: é defender uma ideia com base na fé, é um “salto de fé” à ignorante, e não à filme – por norma, nos filmes é que corre sempre tudo bem, ou não é, Indy? Os argumentos, oh, os argumentos!, pelo contrário, ajudam-nos a perceber como é que tudo se sucede e porque (as in causalidade) é que se atingem umas conclusões e não outras. O facto, por si só, não é mais que uma conta de matemática, e só a parte a seguir ao igual – de que é que vale?

Note-se: Fernando Pessoa, em “Idéias Políticas”, é que me ensinou isto. Só quis reaplicá-lo, ou relembrá-lo.

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