Não, espera. Diz.

Posted on Dezembro 4, 2012 por

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Acabei de descobrir que ela não sabe escrever bem. E não sabes o quanto isso me deixa triste.

Meu.

Meu nada, é. É triste. Acho que preferia não saber metade das coisas que sei hoje. Sobre tudo, sobre uma série de coisas. Sobre ela também, mas não é só sobre ela. São coisas que não me fazem falta nenhuma, são coisas que nem sequer sabem que eu sei delas. Se não soubesse delas vivia num mundo muito mais bonito.

E de que é que te serve viver num mundo mais bonito cheio de coisas que não conheces?

Vou ouvir música.

Não, espera.

Diz.

De que é que te serve, de que é que te serve viver assim, num mundo mais bonito porque cheio de coisas que não conheces e mais, que não conheces porque não queres sequer conhecê-las? Isso é optar por não viver na realidade, para viver melhor?

Vou ouvir música. Posso ir ouvir música?

Preferes um sítio assim, pintado com as tuas músicas preferidas, a um sítio pintado com as cores de toda a gente?

Odeio pessoas.

É uma gaja. É só uma gaja.

Não. Sou eu à procura do infinito. Sou eu à minha procura, a querer, a querer que ela seja só aquilo que eu acho que ela tem que ser.

Uma projeção?

Sei lá. Sim. Não, não sei! Ela é aquilo que eu demorei a fazer dela em menos de um segundo. Tem essa força toda. Tem a força que qualquer criação tem, só que esta eu sinto-a. Sinto-a porque é minha, porque sou eu a criar. Sinto-me a criar. Sou o seu criador, fui eu que a criei e tenho essa responsabilidade.

E preferes só ter isso tudo a, a ter alguma coisa? Isso não te deixa triste, sentires que preferes o que criaste àquilo que podes, de facto, ter? Isso é não ter nada, meu!

Se achar que nunca lá ia chegar de outra forma, que não ia haver impacto nenhum em nenhum dos dois sentidos, nem para aqui nem daqui para ali, porque é que não hei de preferir não conhecer? Posso preferir criar, gozar dessa liberdade, elevar-me a mil. Conhecer totalmente, do ponto de vista que me interessa. Do meu.

O problema é que tu pelos vistos insistes em fazer isso com o que já existe. Brincas com isso, ainda por cima, porque vives no limite do que criaste e do que podes vir a conhecer realmente, está tudo ao alcance de, de, de um olhar para trás e olha, lá estás tu, a olhar para ela, para seres apanhado. Para teres que lidar diretamente com uma mistura da tua criação e do que é e existe. E nunca vai bater certo, nunca vão ser a mesma coisa. Se fossem a mesma coisa, se pudessem, nem que no mais pequeno pormenor, ser a mesma coisa, de onde ia surgir a tua necessidade de criar? Para quê, se não ias acrescentar ou retirar nada? Se não ias alterar nada, nem para ti?

Javier Silva

Não é perigoso, não te pões a jeito? Dá-te mais gozo, assim? É que quando não bate certo, quando o que tu queres não é, não há, porque é outra porcaria qualquer que decidiste não ver, ou desprezar por seres maior, por achares que és maior, por achares que, pá, por achares que podes e que tens o direito de o ser e de, de criar?, por

É. É tão horrível como reconheceres em ti próprio uma coisa de que não gostas e que queres arrancar de ti. Se calhar, não é mais do que chegares a esta conclusão, de que não és nem nunca vais ser aquilo que

Vai ouvir música.

a

Fotografia original: Javier Silva

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