You can’t buy class II: Qual nervo?

Posted on Março 4, 2013 por

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«O Arsenal é de resto um bom exemplo para a fragilidade de algumas equipas”facilmente” atropeladas pelo músculo. Na Liga Inglesa, uma equipa para conquistar títulos ou para cumprir os seus objetivos, sejam eles quais forem, tem de ter músculo. É obrigatório. Não chega jogar futebol.»

«O Arsenal de Wenger não tem essas duas ou três características e, apesar de não ganhar títulos há alguns anos, discute-os invariavelmente até ao fim (as últimas duas épocas serão a tal exceção).

Não: o problema do Arsenal não é músculo coisa nenhuma. Se fosse músculo não conseguia andar lá em cima constantemente, a morder os calcanhares a equipas com orçamentos muito superiores. O problema do Arsenal é outro, tem a ver com o facto do Wenger não saber trabalhar aspetos defensivos e não ser, nesse capítulo, um treinador tão bom como o é em aspetos ofensivos.

O Arsenal não é frágil por causa de falta de músculo. As suas fragilidades explicam-se com a tal deficiência dos processos defensivos, com a quantidade anormal de lesões musculares (e isto não tem nada a ver com músculo) e traumáticas, e com o facto de não conseguir manter uma base de jogadores durante muitos anos seguidos, vítima do poderio financeiro dos outros.»

«A dose de músculo mencionada não é só nas pernas, é nervo. Também não é “vontade” nem “querer”, como se banalizou. É outra coisa necessária a um ritmo que só existe em Inglaterra. Não existe em Espanha, Portugal, Itália, Holanda, França, Bélgica ou qualquer outra Liga do Continente. Uma equipa, para ser rainha em Inglaterra, precisa indispensavelmente de duas ou três características que na Premier League fazem toda a diferença.»

«Ora, as melhores equipas inglesas, e aquelas que ganham sistematicamente, há muito que deixaram o nervo de lado. Ou melhor, podem até ter “nervo”, mas precisam de muito mais do que “nervo”. O City só foi campeão porque se continentalizou. O United é uma equipa quase italiana, em certos aspetos. O Arsenal, então, joga o futebol menos inglês de todos. O Chelsea do Mourinho e o Chelsea do Ancelloti eram tudo menos equipas inglesas.

Tu achas que em Inglaterra tem de se ser inglês, como achas que em Itália tem de se ser italiano. Eu acho que, seja em Inglaterra, seja noutro sítio qualquer, há maneiras melhores de jogar futebol. Uma equipa que saiba jogar futebol a sério usaria até o “nervo” excessivo dos ingleses contra eles. Punha-os à rabia, à espera que se desposicionassem, ganhava faltas, cartões, etc.. Tu achas que, contra “nervo”, há que ter “nervo”.

Santi Cazorla e Jack Wilshere - dois dos Grandes

Santi Cazorla e Jack Wilshere – dois dos Grandes

Eu, pelo contrário, acho que contra uma arma que tem pontos fracos se devem usar armas diferentes. Sempre achei isso. Sempre achei que, contra uma equipa alta, por exemplo, a solução não era incorporar dois ou três tipos altos no onze, para compensar, mas antes jogar um futebol que fizesse com que a diferença de alturas não tivesse grande relevância. Num futebol como o inglês, precisamente, o modo de contornar esse “nervo” de que falas é jogar um futebol em que a diferença de “nervo” não seja relevante. O Arsenal consegue-o há muito tempo, e é por isso que nunca deixou de estar no topo. Tem outros problemas, mas não é a falta de “nervo” ou a falta de músculo, ou a falta do que tu quiseres, que os tem prejudicado.

Pelo contrário! É por não serem uma equipa inglesa que continuam a ser uma equipa grande. Com o orçamento que têm, se não fosse a qualidade do futebol deles…

O problema de grande parte das pessoas é o problema de qualquer estúpido: se não vir resultados, acha que está tudo mal. Para estas pessoas, futebol é estatística.»

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Também desta série: You can’t buy class I: Não há curva descendente nenhuma! e You can’t buy class III: Identidade Wenger

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