It’s Kind of Ironic

Posted on Abril 28, 2013 por

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Eles não estão de volta.

Daft-Punk-Random-Access-MemoriesO single Get Lucky, lançado no dia 19 de abril, profetizou a chegada de algo que não é o que aprendemos a chamar Daft Punk. Preciso desde já de me socorrer do lugar-comum: não é melhor, não é pior; é diferente. É muito diferente. E é absolutamente extraordinário.

É um novo conceito, e percebe-se que Thomas e Guy-Man assim o quiseram desde a génese de Random Access Memories. Tentar o back to basics e evitar a tecnologia é algo vastamente experimentado, mas ver uma banda que sempre foi eletrónica a fazê-lo é, de facto, algo de novo. E vai provar que os artistas de música eletrónica (pelo menos os mais talentosos) são músicos.

Toda a maturação deste conceito parece exímia. Muito nunca se saberá sobre o processo, mas um dossier bem visível do mesmo e em que os andróides estiveram irrepreensíveis é o das colaborações. Este álbum é quase uma coletânea de all-stars da produção musical, com foco em artistas que são, também, intérpretes de eleição. Estou em pulgas para saber onde e como entra Julian Casablancas no meio disto tudo, mas, por enquanto, ainda só dá mesmo para falar da Get Lucky. E assunto já não falta.

Nile Rodgers com Daft Punk é a colaboração perfeita. Perfeita. No regresso intencionado aos tempos em que a música era divertida e pura, Nile Rodgers é o artista que melhor encaixa no estilo dos franceses e mantém a música deste álbum fiel a essa imagem de marca. Ou não fosse Rodgers o guitarrista dos riffs incansáveis dos Chic, que se repetem vezes sem conta e se acaba sempre a pedir por mais. Qualquer semelhança com os loops que caracterizam os Daft Punk não é mera coincidência.

Pharrell. Para este single em particular, poucos outros artistas haveria tão adequados para interpretar e transmitir o feeling da música. Foram feitos um para o outro, Williams e a Get Lucky – e isso fica patente numa atuação ao vivo do norte-americano logo no dia seguinte ao lançamento do single: repetiu-a três vezes com a diversão de quem está a fazer karaoke da música preferida.

É, aliás, paradigmático. Ouvir esta música sem a repetir é, no mínimo, desafiante e o próprio Pharrell, um dos responsáveis pelo contágio, também não lhe resiste. Não dá. E não é uma coreografia engraçada, mamas ou uma letra sobre se apanhar borracheiras e viver a vida. É a música.

Nota ainda para o vídeo de teaser, que ilustra bem onde se posicionam os Daft Punk com este novo trabalho. A clássica banda de 4 elementos: vocalista ao meio, ladeado pelo guitarrista e pelo baixista, e o baterista a completar a geometria mais atrás. Dois andróides, dois humanos. O melhor do instrumental e o melhor do eletrónico, na busca que ambos os segmentos tomam como missão: a busca por ondas sonoras inesquecíveis.

Get Lucky

“Dois andróides, dois humanos. O melhor do instrumental e o melhor do eletrónico, na busca que ambos os segmentos tomam como missão: a busca por ondas sonoras inesquecíveis.”

“It’s kind of ironic. Two androids are bringing soul back to music.”

Quem o diz é Todd Edwards, no seu vídeo da série The Collaborators, e diz tudo. A música tem tido grandes intérpretes instrumentais e grandes intérpretes eletrónicos, mas já não tinha esta alma há muito, demasiado tempo. Felizmente, os robôs voltaram para protagonizar o resgate (metafórico) mais heróico dos últimos tempos: o resgate do groove.

Os robôs declaram estado de alegria sobre a humanidade. Obedeçamos.

Este texto foi escrito ao abrigo do groove estratosférico da Get Lucky.

Posted in: Música