Andrea, vem comigo.

Posted on Maio 21, 2013 por

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Quando um homem a sério é seduzido, é-o em silêncio.

O ambiente instala-se de repente, o ambiente certo, e o remoinho do caos cabe todo naquele metro quadrado. À filme, o cenário que se instala é bonito, tem a música certa a tocar de fundo e dá para ouvir todas as notas, todos os pormenores. Poucas são as vezes em que conseguimos ouvir todas as notas e distinguir todos os pormenores. O barulho que não interessa desaparece e percebe-se o que vem do outro lado só de se lhe ler os lábios e de se lhe perceber a intenção em cada gesto, por menos gesto que seja.

Assumir essa sedução é o maior sinal de respeito para com a outra pessoa e para consigo mesmo que um homem a sério pode oferecer numa situação assim, tão fora do controle. Os anos voltam atrás e é-se criança inocente a explodir sorrisos que nascem na barriga. Deixa de ser preciso respirar só para não interromper, ou porque o corpo não está habituado a ter que reagir a este tipo de estímulos. Não é costume e não se está preparado, mas reconhece-se esse estado e assume-se uma entrega total. É o que há de melhor no mundo, ser-se seduzido. Por uma ideia.

E ser apanhado.

Quando um homem a sério é seduzido, é-o em silêncio.

Verão de 2010, Barcelona. Reboliço instalado numa festa de fim de tarde com convidado especial em Camp Nou. Ronaldinho regressa nessa tarde para ser aplaudido de pé mais uma vez, num Barça Milan daqueles para entreter. Entretanto, Ibra é tema de conversa generalizado e o “jogo” volta a girar à sua volta, como sempre exigiu e procurou. É a semana dele, outra vez, mas nem assim: há quem venha de fora e lhe passe por cima, no próprio estádio.

De fato e gravata e com a classe que já o caracterizava antes do famoso panenka com que matou aqueles quartos de final de 2012, Pirlo passeia-se pela sombra após mais um dia de trabalho. Curiosamente, nesse mesmo fim de tarde, despede-se de Camp Nou debaixo de risos infantis após um penálti entregue às mãos de Pinto. Com classe na retirada, ainda assim.

Sempre.

Toma banho e sai. Manuel Estiarte, homem de confiança de Pep Guardiola, espera por ele no corredor.

Andrea, vem comigo. Ele quer falar contigo.

Dali até ao gabinete do então treinador do Barcelona foram duas horas, naqueles dois minutos. Arrumar ideias e preparar-se para o que estava a acontecer, para o que ia acontecer. Submeter-se à incapacidade para tomar outra decisão que não a óbvia. Deixar-se seduzir, aceitá-lo, gostar disso e querer mais, sem proferir uma única palavra. Filtrar o ruído e abrir a porta.

Pirlo

Guardiola esperava-o sentado do outro lado de uma secretária onde pusera dois copos e uma garrafa de vinho – Pirlo dedica boa parte do seu tempo a uma produção vinícola em Coller, próximo de Brescia. Obrigado por teres aceite este convite, em perfeito italiano. Pirlo quase não falou durante a meia hora que durou a conversa, qual homem a sério.

Não podemos pedir muito mais, estamos muito bem, mas tu serias a cereja no topo do bolo. Estamos à procura do jogador certo para ir alternando com o Xavi, o Iniesta e o Busquets, e esse jogador és tu.

Guardiola revelou ainda que já tinham falado com o Milan e que o clube italiano se tinha recusado a abdicar do jogador, mas que por ele voltariam a insistir. Entretanto, Pirlo resumia o seu assombro anuindo levemente, lendo os lábios e ouvindo cada nota que fazia a sala. Em silêncio.

Mais do que para o Real Madrid, teria ido para Barcelona sem hesitar. O melhor clube do mundo!, palavras do italiano, que por pouco não coincidiu logo com Pep no Brescia em 2001. A ideia absorvera-o assim que vira Estiarte à saída do balneário e ainda ali estava, com o olhar posto para lá da janela do avião, enquanto o tema Ibra dominava qualquer conversa. Eles sabiam do caso dele; do meu, nada, revela.

As negociações duraram ainda algum tempo até que o Milan impediu definitivamente que a transferência se concretizasse. Um ano depois, Pirlo haveria de sair para a Juventus.

Teria sido mágico.

a

Fotografia original: Daily Record

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