Espera aí que eu também vou

Posted on Julho 4, 2013 por

0


Tem sido veiculado nas últimas semanas que já se notam sinais de viragem no panorama político português. Eu noto essencialmente uma: habitualmente, no verão, temos um pouco de paz da política, cuja atividade acalma um pouco, abrindo tempo de antena suficiente no defeso para noticiar todas as contratações do Benfica. Este verão, porém, começa logo com a saída de dois ministros-chave do atual Governo e declarações ao país em catadupa. Assim de rajada e logo ao início, que é para virar e bem.

Logo na segunda-feira e com a generosidade de escrever uma carta em vez de proferir um discurso, pediu a demissão o Ministro das Finanças Vítor Gaspar, ministro crucial pelo momento de desequilíbrio financeiro que o país atravessa. Não foi preciso nem um movimento completo de rotação da Terra para se seguir a ele Paulo Portas, ministro-chave porque… Porque não há Portas sem chave, suponho. É o único argumento que encontro para justificar o uso da expressão “ministro-chave”.

Diga-se, em justiça de Paulo Portas, que o seu papel neste Governo não foi fácil. Imagino até momentos frustrantes em que, com boa vontade, tentava obter a atenção e a atração de investidores e estes acabavam por lhe perguntar onde é que está mas é o amigo dele das piadas esquisitas, que querem perguntar-lhe pelas yields a 10 anos. Toda a smooth talk (expressão eufemicamente adequada) estava inevitavelmente a cargo de Vítor Gaspar. Toda a diplomacia era financeira. E Paulo Portas era um Mantorras no meio disto tudo. Mas, como diriam os Gato Fedorento, mais bronzeado.

Vítor Gaspar informa-se sobre onde é a saída (Legenda jornalisticamente tirada de contexto, numa foto da MSN Notícias)

Vítor Gaspar informa-se sobre onde é a saída (Legenda jornalisticamente tirada de contexto, numa foto da MSN Notícias)

Mais um dia volvido e já eram os demais governantes do CDS que iriam apresentar a demissão. A situação faz lembrar um daqueles momentos desconfortáveis em que toda a gente se quer ir embora de um sítio, mas ninguém quer ser o primeiro. Havendo quem abra caminho, seguem-se logo vários outros com um típico «epá, já que vais indo aproveito a boleia» ou «espera aí que eu também vou». Com efeito, sabe-se que já há algum tempo que quer Gaspar quer Portas tencionavam sair. Gaspar foi, por fim, o tal que se chegou à frente e disse que tinha mesmo de ir, senão a mulher punha-o a dormir no sofá com o Excel. (não sei porquê, imagino que, se o ex-ministro tiver um cão, chama-se Excel, e que também se distrai a dar-lhe a ração)

Na verdade, Passos Coelho parece ter conseguido recordar Paulo Portas de que foram eles os dois que ficaram de lavar a loiça desta vez, tendo por isso de continuar mesmo que Gaspar tenha saído. A loiça; e não roupa suja. Que era o que já começava a perspetivar. À data de escrita deste texto, os dois continuavam a tentar puxar o lustro à coligação. Desde já lamento se isto ficar tudo desatualizado num instante (é o mais certo), mas mereça eu o desconto de vivermos na era da informação e, sobretudo, de se tratar da vida política portuguesa. De previsível e constante, só mesmo a baixa qualidade dos intervenientes.

A situação faz lembrar um daqueles momentos desconfortáveis em que toda a gente se quer ir embora de um sítio, mas ninguém quer ser o primeiro.

Entre estas reviravoltas e estes e outros swaps da conjuntura política, surge Maria Luís Albuquerque. E, se Paulo Portas era o Mantorras do Governo, então Maria Luís Albuquerque é o Vercauteren. Um nome com alegados créditos internacionais, mas que, na verdade, só vem ajudar a carregar o caixão. Tal como após a saída de Sá Pinto, a oportunidade para mudar de rumo existia, mas ficou-se pela derrocada anunciada.

A propósito, e numa reflexão final, uso a expressão “derrocada” para variar um bocado. Nos últimos dias, tenho ouvido mais a palavra “desmoronamento” e o verbo “desmoronar” mais vezes do que o Marquês de Pombal em 1755. Acho que já era altura da esquerda diversificar os escritores dos discursos. Criava emprego e tudo. Já era um maior contributo para a riqueza da nação do que o que tem sido feito na oposição ao Governo.

Este texto só pode acabar de uma maneira: não percam o próximo episódio porque nós… Nós, se o perdermos, é porque já nos raspámos para outro país qualquer.

Posted in: Acho que, Diariamente