Inteligência e elegância

Posted on Agosto 25, 2013 por

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Não sou muito do tipo de falar sobre tudo e mais alguma coisa, embora quem me conhece reconheça que quando me dá para falar sou capaz de ficar ali a noite inteira – é, as conversas mais interessantes que vou tendo dão-se à noite, à hora a que se assentam as ideias. Pelo menos no meu caso é assim. Nisto, importa complementar e referir que só não sou do tipo de falar sobre tudo e mais alguma coisa porque não gosto de falar sobre aquilo que não domino ou que não me interessa, principalmente porque não gosto de fazer figura de parvo. Nos táxis, vá, vale tudo,

e no meu barbeiro antigo também, coitado, que conta o meu irmão que foi o último daqui de casa que lá foi que lhe começaram a tremer as mãos e que lá teve que desistir, o homem, diz ele que até no ultramar cortou cabelo e cá para mim nunca deve ter subido os preços desde então, que cinco euros pela máquina quatro e mais dez dedos de conversa não são nada dois mil e treze,

mas regra geral não gosto, pronto. Não é meu, chamem-lhe ser alternativo, se quiserem.

Já quando me interessa, que costuma acontecer quando acho que domino o tema ou coisa do género, é verdade, sou capaz de ficar ali a noite inteira. E mais do que ficar por ficar, fico porque estou preparado para ficar ali a noite inteira. Estou bem preparado para a conversa, ao nível do bem preparado que se deve estar, que estou, quando é para discutir com as namoradas ou com as meninas mais chatas – o meio termo, a este nível, é fácil e aguenta-se bem, é tipo conversa de café. Tal e qual.

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Júlia Rabello durante a discussão de Sobre a Mesa

Vem isto à baila porque no outro dia vi-me envolvido numa discussão sobre a organização defensiva no futebol, e sobre a pressão alta, e sobre o Barcelona só conseguir atacar bem porque defende de determinada maneira, e que quando não há pernas não sei quê, e mais uns quantos disparates que viraram verdades universais sem nunca ninguém as ter sequer conseguido fundamentar como deve ser. O fenómeno do futebol enquanto “cena”, enquanto algo que pode ser discutido e falado por qualquer um, é fantástico e dá nisto, enfim, é tipo política, do tipo para que é que se há de saber patavina sobre o tema para se falar dele?, e aliás, onde é que está sequer a dificuldade da coisa?

O futebol, ou aquilo que estava em cima da mesa, tem algumas semelhanças com uma boa conversa ou com uma boa discussão. Se calhar também importa fazer aqui uma ressalva e não dizer que é o “futebol” que passeia as tais semelhanças, mas sim o futebol bem jogado

(atenção que ali atrás é com sublinhado)

ou o futebol que eu defendo para uma equipa grande, aquele que, para mim, faz mais sentido e que mais aproxima uma equipa à vitória, jogo após jogo. Um tipo de futebol que, independentemente do adversário, assenta em bases suficientemente fortes para depender muito pouco daquilo que lhe é externo, sorte incluída.

Ninguém consegue atirar ninguém ao tapete só a conversar se não conseguir, primeiro, que o último dos argumentos apresentados esteja ligado ao primeiro de todos; ninguém consegue emudecer os outros enquanto fala se o que estiver a ser dito não fizer sentido, e voltar a fazer, e voltar a fazer, e se não for mostrando que tudo está bem arrumadinho e bem interligado dentro da sua cabeça, dando a sensação de que se está sempre um passo à frente do outro. É um continuum.

Mais do que nunca, importa encarar este desporto como um sistema em que tudo está ligado entre si e mais, em que tudo está ligado entre si de forma lógica

Para jogar bem à bola, para estar mais perto de ganhar sempre que entrar em campo, também não posso andar a separar umas coisas das outras. Não posso chamar a uma coisa defender e a outra atacar, de forma assim tão diferenciada, como também não posso tomar uma decisão desligando-me de tudo o que a precede e do que vai implicar. É principalmente por isso que julgar uma equipa dizendo que ataca mal é redutor, como também o é dizer que não ataca bem porque não defende bem. São a mesma coisa, sempre que se persigam os objetivos que apontei há bocado: ser-se grande, que passa essencialmente por procurar ganhar todos os jogos por si mesmo, reduzindo a importância que outros agentes ou fatores externos ao jogo possam ter no resultado final.

Defender em cima, pressionar forte ou fazer pressão alta, por si só, não me dizem absolutamente nada. Se não forem consequência de nada e se não tiverem, como consequência necessária, nada que me seja útil, nada que esteja dentro daquilo que defini para o meu modelo de jogo, então é isso, não me dizem absolutamente nada. No futebol de hoje, em que as equipas são, regra geral, melhor preparadas e em que os jogadores estão mais aptos fisicamente para aguentar os noventa minutos sem grandes quebras de ritmo ou de concentração, importa garantir que tudo o que se faz em campo está relacionado entre si, seja com ou sem bola, esteja esta em minha posse, perto ou longe de mim. Mais do que nunca, importa encarar este desporto como um sistema em que tudo está ligado entre si e mais, em que tudo está ligado entre si de forma lógica – esta é a grande condicionante e quem conseguir apresentar os melhores argumentos terá tendência a estar mais perto da vitória (e um estar mais perto da vitória sempre, e não pontualmente ou só contra equipas que jogam de determinada maneira).

Como amostra daquilo que defendo, o futebol como um processo em continuum, vou cingir-me à tal pressão alta e tentar fazer ver que nada deve surgir do acaso e que o que se faz num dado momento beneficia do que foi preparado em antecipação e condiciona o que se pretende a seguir. Neste caso, mais uma vez, assento estas ideias num requisito “simples” que me imponho a mim próprio: quero ganhar sempre.

Reagir o mais rapidamente possível à perda de bola não tem que implicar, necessariamente, uma pressão alta ou uma corrida desenfreada atrás dos adversários. Uma reação rápida à perda de bola pode muito bem ser, se integrado numa ideia de jogo diferente, o recuar organizado dos jogadores para uma determinada zona, para ficar à espera. A reação rápida também pode passar por partir a equipa e lançar duas ou três lebres atrás do adversário e organizar o resto cá atrás. Uma reação rápida à perda de bola até pode passar por fazer recuar ou avançar os jogadores em cambalhotas até à bandeirola de canto mais próxima de cada um, não interessa. O que importa ter bem presente é que reagir rapidamente e reagir rapidamente e bem são duas coisas bem diferentes, e que a segunda é muito mais difícil de trabalhar e assegurar, claro está.

«La buena presión no es física sino posicional.» (Martí Perarnau)

Posto isto, o que o jornalista espanhol afirma faz todo o sentido e merece um aplauso de pé. «A boa pressão não é física, mas posicional.» A boa pressão não é aquela que demora menos tempo a ser exercida, nem tão pouco aquela que é mais agressiva depois de iniciada, nem a que envolve mais homens nem a que é feita mais longe da minha área; a boa pressão será sempre aquela que, da forma mais económica possível – a que utilizar menos recursos, eventualmente, sendo que por recursos podemos entender tempo e energia, por exemplo –, trouxer a bola de volta à minha posse. A partir daqui podemos falar de outros critérios de avaliação e falar de pressões mais ou menos bem conseguidas, claro, pois posso ainda considerar a zona do campo em que recupero a bola, o quão perto estou da baliza adversária ou que condições tenho para jogar – o meu jogar, atenção! – assim que a voltar a ter comigo. E agora, como é que posso estar mais perto de atingir este objetivo, o de recuperar a bola, após perda da mesma, da forma mais económica possível? Estando o máximo de vezes possível no sítio certo à hora certa, ora pois então. Fácil. Pelo menos, não estou a ver outra forma não-religiosa.

Para se conseguir desenvolver em campo um bom jogo posicional, tem que se conseguir que tudo tenha a ver com tudo. Não se pode trabalhar nem avaliar uma situação sem ter em conta tudo o que a envolve, nem se pode fazê-lo sem considerar que todos os jogadores deste lado têm um papel importante no desenvolvimento da mesma. Para ter os meus jogadores lá em cima no sítio certo à hora certa, tudo começou há um tempo atrás (itálico) na pequena área – às tantas, nem interessa tanto onde começou mas sim como se desenvolveu a partir daí, pois devo estar preparado para tudo.

Só um jogo ou um jogar que assente em apoios próximos, em mobilidade sem bola para garantir linhas de passe ao portador a cada momento, em passes curtos e progressões pacientes, com o corredor central como via principal por me permitir mais opções, é que me vai garantir, mais tarde, estar mais vezes no sítio certo à hora certa. Num caso extremo, só se conseguir chegar com onze jogadores à grande área do adversário, com a bola controlada, é que, em caso de perda, vou ter onze jogadores para fazer pressão logo ali, quase que exatamente no sítio onde me roubaram a bola e que afinal é já aqui, onde estou eu e mais cinco, seis, sete, oito, os que forem.

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Matt Damon em Good Will Hunting

Optar por jogar desta forma implica acreditar profundamente que sair a jogar com o guarda-redes não tem por finalidade ter mais tempo de posse de bola, nem evitar a incerteza de uma disputa de bola pelo ar cinquenta metros mais à frente. Sair a jogar na nossa grande área terá que ter um propósito lógico dentro daquilo que pretendo para o meu modelo de jogo, e serve-me para começar desde logo a construir a tal rede de apoios, serve-me para fortalecer o nosso rendilhado e para começar a posicionar os nossos jogadores nos sítios certos – estes sítios certos dependem, sempre, da bola, da zona do campo e dos nossos colegas de equipa. Sair a jogar pela defesa vai obrigar, neste modelo, a que toda a equipa baixe tanto quanto possível para assegurar linhas de passe que me permitam progredir no sentido da outra baliza, direta ou indiretamente. Numa zona do campo em que normalmente a superioridade numérica é de quem tem a bola, porque não tentar? Porque não aproveitar e começar logo por aí?

Optar por jogar com passes curtos, tendo antes garantido que, através da tal mobilidade de todos os jogadores e com a ideia de apoios próximos bem presente, tenho jogadores sempre disponíveis para receber a bola, é também a única forma natural de não partir a equipa e de assegurar que o tal rendilhado que fui construindo não se rompe de um momento para o outro. Que não se parte e que não fico, de repente, sem ninguém com quem jogar e entregue a mim mesmo, no meio de nenhures.

O que começa com uma troca de passes simples lá atrás acaba por ser determinante no momento de perda

Por outro lado, ainda que fisicamente muito difícil, o desenvolvimento de um futebol deste tipo pode muito bem chegar à baliza contrária com quatro ou cinco passes e fazer golo, que uma coisa não implica a outra; a diferença está mais no tipo de opções que se tomam quando o adversário não nos permite progredir no sentido da sua baliza assim tão facilmente, que neste caso passam pela tal progressão paciente, em apoios, curta. Progredir desta forma implica fazer tantos passes para o lado e para trás quantos seja necessário para garantir que a bola continua em nossa posse – porque precisamos dela para fazer o que queremos e chegar onde queremos – e que o adversário, a pouco e pouco, se vai desposicionando, para podermos então evoluir no terreno com a bola controlada, com um passe ou outro entre linhas. Ir avançando assim, aos poucos, se necessário, garante-me coberturas e equilíbrios que nenhum outro modelo me garante, e vai-me deixando preparado para as situações do jogo em que tenho e não tenho a bola. Com bola, lá à frente, só coloco jogadores meus em situações de um para um quando muito perto da finalização ou definição do que fui construindo, depois de assegurar que este não tem que enfrentar dois ou três adversários em simultâneo em desvantagem, ainda que deva procurar garantir sempre um apoio próximo que me salvaguarde a derrota no duelo: ter uma linha de passe atrasada por perto é ter uma cobertura por perto, tirem-me a mim a bola; ter duas ou três à minha volta é ter uma rede pronta a atuar em situações adversas, no sítio certo e à hora certa.

Tudo o que começa com uma troca de passes relativamente simples lá atrás acaba por ser determinante no tipo de pressão que consigo exercer no momento de perda da posse de bola, daí que me seja muito complicado separar a defesa do ataque de um ponto de vista teórico, de construção de um modelo de jogo, de análise ou de trabalho. Poder defender as minhas ideias assim que estas começarem a ser contrariadas, e de uma forma que seja pragmática o suficiente para que quem contraria se veja rapidamente esclarecido, implica ter começado, logo no início, a tecer uma teia tramada que vai acabar por absorver tudo o que for colocado em cima da mesa, por qualquer dos lados. Talvez possamos considerar, portanto, que preparar uma equipa para jogar desta maneira é semelhante a preparar uma conversa ou uma discussão com uma rede de argumentos interligados, em que a associação entre uns e outros, embora possa não ser óbvia e não ter implicações diretas naquilo que se quer defender, garante uma robustez que um arsenal de ideias soltas não garante.

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Imagens originais: 1, 2

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