Nunca corras para apanhar o autocarro

Posted on Agosto 27, 2013 por

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If you want to make God laugh, tell him your plans

Não acredito nessa ideia de Deus que O pinta à secretária com um dossier com o teu nome, onde está escrito onde vais acabar, e com quem. E, verdade seja dita, também não acredito em planos. São formas que nós temos para simplificar uma realidade que está para lá do alcance do nosso conhecimento. Tanto uns como o Outro. São maneiras de dividir um objectivo máximo (que muitas vezes nem sequer é nosso) em pequenos objectivos do dia-a-dia. Sendo assim, prefiro acreditar na vida, nas pessoas, no trabalho e no aproveitamento das oportunidades. Em fazer tudo para estar no sítio certo à hora certa para apanhar o autocarro que te leva para um “resto da tua vida”, mesmo que não saibas muito bem qual é. Noutras palavras, ter uma ideia do destino final, mas estar preparado para aceitar que a qualquer momento podes apanhar um motorista doido que te leva para outro qualquer, onde nunca sonhaste acabar.

O que não implica que a cada momento não sejas capaz de dizer que tens uma ideia do que queres da vida, no imediato. Acabar o curso, o mestrado, trocar de carro, vender a casa, mudar de emprego, arranjar namorada, não arranjar namorada… Mas até estas pequenas “milestones” acabam por ser de uma volatilidade tão grande, que às vezes chego a pensar se valerá a pena responder quando a nossa cabeça nos pergunta o que vamos fazer amanhã. Basta o professor errado, o relógio de alarme esquecido, o exame mal lido, a pessoa errada, a pessoa certa, um sorriso, uma lágrima, um copo a mais, um copo a menos, e todo o nosso pequeno mundo imaginado se sujeita a ficar de pantanas, de repente.

Por vezes tens a sorte (ou o azar) de ser apenas uma palavra. Inocente, em qualquer outra altura tinha-te passado ao lado. Mas ali, naquele momento, dá-se uma conjugação cósmica qualquer incompreensível, e a palavrinha passa a martelo pneumático, entra-te pelos ouvidos mas mais parece que verte directamente para um sítio mais fundo, onde tu achavas que já nada nem ninguém conseguia chegar. Sem inocência nenhuma (já te conseguiu enganar), destrói as defesas que demoraste anos a montar. E, de repente, mais valia estares nu numa multidão. Como uma criança perdida da mão da mãe, sentes que não consegues esconder nada, vulnerável, a tua própria alma está ali à exposição, para quem quiser ver. E da nuvem de poeira que paira sobre os escombros dos planos de uma vida que já não é a tua, aparecem os faróis de um autocarro novinho em folha, com um espaço em branco onde devia estar o destino. E nesse momento apercebes-te de que naquele espaço em branco cabem sonhos que nunca sonhaste sonhar. A palavrinha tornou-se porta para um autocarro que não sabias que existia, mas onde nem sonhas não entrar.Fonte: http://bigevidence.blogspot.com.br/2011/10/changing-nature-of-change.html

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