Hoje vi a princesa no vietname

Posted on Outubro 21, 2013 por

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Hoje vi a princesa na cantina. Gosto mais de a ver de pé do que sentada.

Acabei por almoçar por lá pela chuva, ainda que não estivesse a chover quando íamos para sair. É que se tivesse almoçado fora tinha dado asneira, ia passar a tarde toda a pensar que isto nunca mais secava e depois não tinha visto a princesa. Estava eu na fila das carnes, que ali há a fila das carnes e a do peixe, e olhei pela primeira vez por cima do ombro esquerdo, que ali a fila das carnes é a que fica do lado direito da sala, lá ao fundo, para ver se a via. Mais do que para ver se a via, era um para ver se a via e lhe apanhava o ângulo certo, o mais bonito, que mesmo sendo ela ela tem ângulos mais bonitos e ângulos menos bonitos, vá.

Um movimento.

É por isso que acho que gosto mais de a ver de pé do que sentada, é. Pelo movimento. Sentada, ela olha para a esquerda e para a direita, de cotovelos em cima da mesa ou a mastigar, e não tem nem metade do brilho. Vamos lá ver, nem é bem uma questão de se estar ou não sentada,

se fosse a estar sentada à minha frente, ou na mesa do lado, num restaurante todo não-sei-quê, com o salto alto e a perna cruzada e o colar ou o brinco de pérolas e a maquilhagem leve e o sorriso natural mas lindo, lindo, lindo, arrebatador e desconcertante, daqueles que te atrapalha o raciocínio e que se mete no meio das tuas ideias sem tu nada, daqueles que de tão natural faz com que o salto, e a postura, e as pernas, e o brinco e a pérola e o riscozinho a preto que lhe desenha o resto dos olhos pareçam pouco acessórios, pareçam mais dela do que é costume nas mulheres,

se fosse a estar sentada à minha frente assim…

mas não, vamos lá ver, é uma questão de estar sentada numa cantina e rodeada de gente sem graça, e num sítio cheio de gente sem graça e de barulho, o barulho dos talheres e das folhas que cobrem os tabuleiros a roçarem umas nas outras, o barulho do e quer num pratinho pequeno ou num pratinho grande, senhor doutor?, e o do e a batatinha, já chega, quer mais?, num chorrilho de diminutivos que não tem a sorte, sequer!, de ter na prateleira do meio uma boa mousse de chocolate, uma laranja doce e bem cortada, um ponta-de-lança de refeição à séria que finalize em grande estilo e que faça esquecer a pobre exibição do resto da equipa. Ser-se cheio de gente e de barulho é mau, é do pior que me podia acontecer.

– Como é que estás hoje?

– Porra, estou cheio de gente e de barulho.

É pior que estar constipado ou pregado à cama com uma daquelas de domingo que deus me livre, bolas. Pessoas. Barulho.

A princesa na avenida da liberdade tem mais graça, de noite, mesmo e até com pouca luz, encostada às correntes e aos postes, junto aos quiosques. Nem me lembro se a vejo com o copo de plástico com a cerveja na mão ou se não, lembro-me do cabelo que afinal voa, ou esvoaça, esvoaça, sim!, e do estilo descontraído e dos gestos a conversar e do sorriso, sempre lá, uma espécie de abraço que lhe abraça o resto que ela for e tiver. Tem tanto movimento que nem tem última curva, e ela até nem tem curvas nada de especial, fica-se só a olhar e a imaginar cenários em abstrato. É-se livre. Deixa-me ser livre e isso sabe tão bem.

Passei por ela de tabuleiro na mão e nada, nada a ver. Preferia apanhá-la mais logo a caminho da paragem do autocarro, de mala ao ombro e de passo apressado por causa das horas e do escuro e dos estranhos que param ao nosso lado nas passadeiras, a olhar para baixo para não tropeçar nem ser vista, como se isso fosse possível cá do fundo. Preferia isso tudo àquele bocadinho de cantina, àquele bocadinho de mais uma, olha, mais gira mas mais uma. E se calhar é assim que vou ter que olhar para ela todos os dias, e ainda por cima fazer fila para olhar para ela assim todos os dias!, não sei. Princesa. Traço fino e impecável mas um “mas” do tamanho do mundo à tua volta que me tira o que me podia dar tanto.

Vietname

Hoje sonhei que estava no Vietname, na guerra, e que o Vietname era uma espécie de ilha ou que era formado por uma série delas – vá-se lá saber onde é que eu estava mas no Vietname era de certeza. Tinha capacete e tudo. De certa forma, no meu sonho, era daquilo que tinha andado à procura imenso tempo, desde miúdo ou assim, e, finalmente, enquanto rastejava na areia, de noite e sem ver nada e no meio de uma mistura de cheiro a medo e a maresia, temi levar um tiro na cabeça e morrer ali, e descobrir que afinal não era imortal, que se morre mesmo e que é tão fácil, tão rápido, tão sem pedir licença. Morrer na praia, literalmente.

E hoje quando entrei na cantina dei licença a três pessoas, enquanto segurava a porta com o braço esquerdo e dobrava o outro para dentro, para segurar o casaco e não ficar com o braço pendurado, como fazem as pessoas elegantes, e depois da última passar lá levantei eu os olhos à medida que a porta se ia fechando atrás de mim e me ia deixando sozinho, desamparado, a olhar para ela. Sentada, com cara de curiosa e traço fino, impecável, a olhar para mim, para mim que tinha acabado de entrar, e eu para ela, com tudo desfocado à volta e de repente uma sala sem pessoas e sem barulho,

– Como é que estás hoje?

– Ótimo.

e não durou mais que um segundo, se é que chegou a durar um segundo, visto desde agora não foi um segundo de certeza, te garanto, uma fração da mais ínfima unidade de tempo e que durou quanto dura a eternidade, não sei se me faço entender, apertou-me os arrepios contra os pulmões e não deixou sair ar nenhum e fiquei rígido, sem frio mas também sem saber lá muito bem com o quê, e fugi daquele olhar como quem foge das balas num vietname para morrer na praia.

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Imagem original: JinxyWinxy

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