Eu tenho dois amores (que em nada são iguais)

Posted on Outubro 22, 2013 por

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Ela,

Conheço-a desde sempre, parece. Envolveu a minha vida e fez-me ser quem sou. Tão fácil estar, ser com ela. Uma imperial num pôr-do-sol de verão, um copo com os amigos lá naquele sítio do costume, o café da manhã fria de Novembro, o cheiro do cabelo da miúda nas mãos, o almoço com os avós ao domingo.

Familiar.

É linda, resplandecente. Apetece guardar e levar para casa, viver a vida a gastar-lhe as bochechas. Jantar fora, andar de mão dada, ir ao cinema. Sorrir ao telefone, abrir a porta do carro, aquela mensagem quando acordas.

Confortável.

Simples e despreocupada, ela é só luz, estás sempre tranquilo, podes contar com ela. É verdade, de vez em quando ainda se zanga, mas é aquela discussão adolescente, de quem se irrita de tanto gostar de ti. Minuto seguinte já há riso. Ela ri muito, ri com os olhos, contagia.

 Apaixona.

Podia escrever um livro só com um pronome, e só um verbo. Ela é. E era natural que eu ficasse com ela, para sempre. Natural demais. Doeu muito deixá-la.

É uma ânsia interna, um desejo alto de dar o máximo para descobrir tudo o que podes ser, e saber que só depende de ti. E ela, é uma muleta que tornou tudo mais fácil, que te endireitou o passo quando vacilaste. Sempre que precisaste ela deu aquele empurrão, a mão da tua mãe na tua quando, cambaleante, obrigas as pernas aos primeiros passos.

Pé ante pé, a ambição mudou de morada, de continente mesmo. Aquela mão, amiga ao início, logo se torna corrente que te segura e prende à tua própria incapacidade passada. A sorte em tê-la a Ela ao teu lado tornou-se a tua maldição, tens de a largar e provar (a ti mesmo?) que te bastas.

Pouco depois, aparece uma nova. Mas esta, cuidado com ela. Beleza rara, olhar penetrante, um quê de indomável nas veias. Não lhe escondes nada, porque ela tem a escola toda. E faz-te pagar caro pelos erros. Escorregas e perdeste, jogador. Esta é a pedrada no meio do charco que procuravas.

Crua.

Orgulhosa, altiva, não vacila, confiante não só na fachada. Não chora, range os dentes, morde, arranha. E quando a vês andar na rua, parece que desfila… Escurece quando ela vira a esquina.

Poderosa.

Ao contrário da anterior, nunca vai ser completamente tua, e não pode nem sonhar que te tem na mão. Mas enquanto a respeitares, ela dá tudo. E tu, sem lhe dizeres, adoras cada minuto.

Deixei as Sete Colinas pela Maravilhosa, e hoje acordei no Rio de Janeiro. Mas acho que o Rio de Janeiro é que acordou em mim.

Por pouco, esqueço que existe uma vida lá algures, numa ex-pátria da qual ainda não tive tempo de ter saudades. Só deles, que a preenchem. E mesmo esses, preferia tê-los comigo, a estar lá. Dou tudo, para honrar a falta que me fazem.

ambição

(Imagem: http://albirio.files.wordpress.com/2011/07/ambic3a7c3a3o.jpg, consultada em 22-10-2013)

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