A lágrima das tuas histórias

Posted on Maio 2, 2014 por

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Não é verdade que me sinta na obrigação de arranjar em mim mais que o coração e o sorriso para te receber e ficar contigo, porque quero estar tão à vontade quanto estaria se cá estivesses, de facto, mas às tantas já não sei se não cá estás mais agora que não estás do que quando estavas, porque dessa altura lembro-me de pouca coisa e eu fico triste quando percebo que só me lembro de pouca coisa e perco-me.

E não queria muita coisa. Dessa altura não me lembro nem da voz, nem do cabelo, mas do teu, porra, que só me lembro daquele que não era teu, nem do teu cheiro ou sequer do cheiro dos sítios que estão nas nossas fotografias,

assim, são só sítios,

nem disso nem quase de coisa nenhuma. Fico triste quando não me lembro nem do teu cheiro nem da tua voz mas me lembro da tua tosse, que tossias todos os dias duas ou três vezes, devia ser conforme, sei lá, duas ou três vezes de manhã no banho enquanto eu esperava para ir para a escola, vê, eu à espera que a tua tosse acabasse e tu à espera que a tua tosse acabasse também, debaixo do barulho da água a correr. Os dois à espera do mesmo.

E há aqueles momentos, como os de hoje, em que te apanho a sair do banho e em que ouço o barulho da água que estava a correr a desaparecer e em que se fechar os olhos vejo tudo, e vejo tudo, e ouço tudo,

tudo, mesmo,

e lembro-me do teu último gesto e do primeiro, também, e do teu espanhol e do teu abraço e de quem me ensinou a dizer merda para a saber gritar quando me apetecesse e vejo tudo, tudo, já disse que vejo tudo?, tudo me cabe nos olhos se os fechar, e há tanta coisa para trás que fica para sempre, oh, tudo, tanta coisa que me cabe nos olhos fechados, tantos momentos e tantos cheiros e tantos sons e tanto tu e tão perto que

Lagrima

que assim que os fecho só não cabe a lágrima que me traça o rosto até ao lábio, a lágrima das tuas histórias. Cai como acabam as músicas boas, e enquanto vai traz-me tudo o que há de ti.

Cai como acabam as músicas boas. Devagarinho.

Daquela forma que nunca acaba.

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