Talvez em Morse

Posted on Maio 11, 2014 por

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Não consigo escrever-te.

De que servem uma folha em branco e 26 letras quando incandescem na minha retina mil narrativas dos teus olhos e a chave de ouro do teu riso mais espontâneo?

(Assim nem posso escrever outra história qualquer.)

Nada mais. Tens em ti todos os enredos e todas as rimas do mundo. Só pode; o teu livro está sempre na página seguinte. E de nada vale fazer a batota do costume e ir espreitar a última página – são todos os enredos e todas as rimas do mundo. (Já) não sou ingénuo: só tu sabes o final. Ou nem tu. Tu não te esgotas.

[Esqueço a folha em que tinha pegado.]

Não vou querer esgotar-te. Nem vou querer encontrar essa última página ou o que for que me permita escrever-te. Tudo o que quero é encontrar, enfim, -te.

E é tão distante.

Viajo por vários verbos, várias vozes e tu, aí, do outro lado do hífen, permaneces – na frenética serenidade de dente-de-leão que pousa, imprevisível por entre gestos babuínos com que tento antecipar essa órbita tão tangente. E tão, tão distante.

Mas sabes que não importa. Dás-me o fôlego de uma nova infância, daquele que faz correr por tardes infinitas e voltar no dia seguinte. Arde nos meus pés a poeira de tantas e tantas tardes assim – mas ardem mais intensamente as narrativas dos teus olhos. A tua inspiração preenche de algo mais que oxigénio, no tipo de respiração que é mais ofegante quando sentes mais energia.

Por isso, agora quero apenas encontrar-te, quando seja, como seja, nas linhas que só tu podes escrever. Que seja até do outro lado desse traço teimoso – português de fado – que insiste em afagar -te (quem o pode julgar?). É que não te encontrar, nem à distância de um hífen… Isso seria o fim da linha.

Fonte da imagem (via Google)
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