Em ano de Mundial, recordar Zidane

Posted on Junho 9, 2014 por

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«Não há nada como ignorar a arte, basear-se em ideais pré-definidos ou ajuizar acções pelo grau de catolicismo que transportam para se poder viver em paz…» Nuno, in Entredez

Olhar para o que aconteceu em 2006 de uma outra perspetiva e dar-lhe a importância que realmente importa e que realmente merece.

Zidane, momentos antes da famosa cabeçada, sabe perfeitamente onde está, o que vai fazer, quem está à sua frente, e todo o tipo de consequências que podem advir daquilo que vai fazer. E fá-lo.

O facto da cabeçada ter sido premeditada dá a Zidane um estatuto sobre-humano. O francês demonstra ser o único Homem verdadeiramente livre no meio daquele coliseu. «Se eu quiser sou campeão do mundo, e se não quiser não sou», e coloca toda a gente à mercê da sua vontade. Naquele momento, que coincide – e, insista-se, por ser absolutamente determinante: Zidane sabe-o! – com o ponto final da sua carreira, Zidane endeusa-se. Não precisa da opinião de mais ninguém, e ele próprio completa-se respeitando-se apenas e só a si próprio, libertando-se totalmente. Goste-se ou não, para lá disso não há mais nada.

Repare-se que Zidane ignora tudo aquilo que haveria, eventualmente, de mais humano em si – o respeito às ambições de uma equipa, o desejo de uma nação que nele depositava enorme fé, a glória e a fama que um segundo troféu daqueles lhe daria, um lugar inquestionável entre os melhores de sempre, aos olhos dos demais… – e perfaz-se enquanto génio. Não lança sequer um olhar à Taça, ao sair. Inacreditável e de arrepiar, tamanho tamanho.

É pena que o que aconteceu em 2006 tenha acontecido a partir de um futebolista, e que, talvez por isso, nunca se lhe venha a atribuir o devido valor. Os que continuam a chamar estúpido a Zidane, continuam, eles sim, a ser estúpidos.

Aquele momento é muito mais que História. É sobre-humano.

Zidane 2006

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Imagem original: Fonte

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