Kily e Bielsa no Brasil em 2014

Posted on Julho 1, 2014 por

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«Tal não significa que optando pelo pior caminho se estará sempre condenado ao insucesso. Tão pouco que optando bem se será sempre bem sucedido. Significa somente que, optando bem, se está sempre mais próximo de se ser bem sucedido.» Pedro Bouças

Vá-se lá saber porquê, vale sempre a pena ouvir falar um argentino. E se for sobre futebol, então, argentino e futebol, há pouca gente que consiga ser tão clara e bonita a falar quanto um argentino.

Interessante a conclusão a que chega Kily González sobre a prestação da seleção da Argentina no Mundial de 2002, na Coreia e no Japão. Kily só foi jogador, mas, pelos vistos, sabe da coisa. Por outro lado, menos surpreendentes são as declarações de Marcelo Bielsa sobre o ocorrido, mas apenas porque de Bielsa já se espera algo certo, inteligente, pensado e lógico. Sempre. Tem sido assim desde que começou, e chamam-lhe louco.

«A sorte não confere mérito, embora consagre campeões do mundo.»

Torna-se curioso – ou evidente – o paralelismo que poderá existir entre esse Mundial e o deste ano, em 2014, no Brasil. No fundo, quanto do mérito da vitória do Brasil, em 2002, corresponde ao Brasil? Ou a Scolari? Quão merecida terá sido essa vitória? Neste sentido, deve também julgar-se a justiça com que algumas equipas vão evoluindo neste campeonato. Quão justo será o vencedor deste ano? Quão justa terá sido a eliminação de equipas como a Espanha, o Chile ou o México, por exemplo?

Pinilla remata ao poste no minuto 120, contra o Brasil. O Chile fica-se pelos oitavos de final - Mundial de 2014 (Brasil)

Pinilla remata ao poste no minuto 120, contra o Brasil. O Chile fica-se pelos oitavos de final – Mundial de 2014 (Brasil)

A sorte e o azar são parte integrante do jogo. Está melhor preparada aquela equipa que melhor condicionar a influência destes elementos externos no seu jogo, aquela que menos dependa deles para atingir os objetivos a que se propõe. Mesmo que não ganhe nunca! É que a sorte e o azar vão existir sempre, ainda que em menor força, e tem dias.

Tem dias em que um resultado, por mais dilatado que seja, não tem explicação lógica. Surge, ou dá-se. Acontece. Por sorte. E a sorte não confere mérito, embora consagre campeões do mundo.

Comecemos com um excerto de uma entrevista a Kily González de Julián Bricco, no seu programa Historias por Dentro:

«Foi muito, muito forte.

Mas o que é que aconteceu? Depois de tanto tempo, o que é que aconteceu?

O que aconteceu? A explicação é que… o futebol é assim tão bonito porque o futebol não tem lógica. Não tem lógica.

Estamos a falar de uma seleção que a priori era a melhor do mundo, tinha ganho a todas as seleções em todos os lados, a todas enquanto visitante, Espanha, Itália, Alemanha, e toda a gente dizia Falta que joguem contra a França! e estas duas selecções, as «melhores do mundo», perderam na primeira fase, e tens que aceitar que foste uma das piores selecções da história da Argentina. Uma selecção que se classificou à falta de cinco jogos para o fim do apuramento, que ganhou a toda a gente como acabei de dizer,

Sim, à Itália foi um baile incrível!

e acabaste com quatro pontos, perdeste por um penálti e um livre direto, e a má sorte foi tanta que até o golo contra a Suécia só o fizeste na recarga de um penálti! Não era para nós. Não era para nós.

Disse-se, depois, ah, o Batistuta e o Crespo não jogaram juntos, e tal… depois dizem-se tantas coisas. Mas contra a Suécia criaste vinte oportunidades de golo, vinte oportunidades de golo ou mais!, e só conseguiste empatar o jogo na recargar de um penálti. É uma história tão… tens que a aceitar.»

“O limite extremo da sensatez é o que o público baptiza de loucura.” Jean Cocteau

Já Bielsa, ainda enquanto selecionador da Argentina, disse após ser eliminado do Mundial de 2002:

«O futebol tem como opção que ganhe a equipa que não é melhor. Eu acho que fomos claramente a melhor equipa do grupo – merecemos ganhar de forma folgada à Suécia, merecemos um resultado superior ao que obtivemos contra a Nigéria e não merecemos perder contra a Inglaterra. Mas pronto, o futebol também tem como opção que não ganhe necessariamente aquele que for melhor e isso foi o que aconteceu.

Foi um fracasso porque tínhamos condições para obter mais do que o que obtivemos, mas também não me parece justo que não se considere, na vossa análise, uma série de aspetos positivos. Não há nenhuma dúvida de que fomos a melhor equipa do grupo e isso, se bem que não suaviza a situação, permite que, desde um ponto de vista desportivo, haja uma série de coisas que se podem aproveitar. O problema é que se torna muito difícil considerá-las no meio da sensação deixada pela derrota, é certo, mas eu acho que, sempre que a análise seja feita de forma tranquila e com moderação, há muitas coisas positivas para considerar. Uma das dificuldades da equipa é que lhe custou traduzir em golos a enorme quantidade de oportunidades de golo que gerou.»

Argentina fica-se pela fase de grupos, após empatar a um golo com a Suécia - Mundial de 2002 (Coreia do Sul e Japão)

Argentina fica-se pela fase de grupos, após empatar a um golo com a Suécia – Mundial de 2002 (Coreia do Sul e Japão)

Finalmente, e para que não se ache Só um argentino para se tentar justificar perante tamanho fracasso!, Guardiola. O que também não deve surpreender. Quem mais?

«Para mim, a equipa mais interessante daquele torneio foi a Argentina, mesmo que não tenha passado da primeira fase.

Jogou muito bem, mas vivemos num mundo onde se ganhares és bom mas se perderes já não importa sequer se tentaste ganhar, nem se tiveste a bola, se a tua equipa estava organizada ou se apostaste num três-quatro-três, como fez Bielsa. Perdes e dizem que fracassaste. Eu vejo as coisas de outra forma.»

Quão justo será o vencedor deste ano?

 

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Fotografias: 1, 2

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