Esse tudo

Posted on Agosto 16, 2015 por

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Gostava que ouvisses esta música e que me ouvisses a ler este texto e que estivesses neste momento comigo e que soubesses que a música é tua,

que o texto é teu,

e que este momento te pertence, a ti.

Tornas fácil imaginar-te em todo o lado pelo quanto és, sem esforço, e por te tornares presente nos pormenores de um caminho. Por seres tanto quando estás, sem alertares, que quando parece que não estás lá estás tu, afinal, ali, e ali, e aqui e para onde eu me levar,

ou tu.

Hoje esta sala estava vazia até tu apareceres, e contigo as saudades de ti.

Mentira.

Hoje esta sala estava vazia até dar conta destas saudades de ti e tu apareceres, com elas. E vejo-te

(não é imagino-te)

ali sentada a ouvir o concerto em silêncio, só a ouvir, ou aqui à minha frente a ouvir-me a escrever e a olhar para mim, tecla, tecla, tecla, como se isso te fosse suficiente e a dares-me, no fundo, apenas um momento teu, contigo.

E estás. Estás, de facto, aqui.

Mas gostava também que estivesses aqui para te veres, para saberes o que é estar contigo, para te conheceres assim, como eu te vou conhecendo. Para descobrires o que é procurar-te e ver-te e ir-te descobrindo e descobrires que és mais do que o que se procura, e te sentires a encher uma sala inteira só de cá estares e o quanto isso sabe bem.

Hão de me faltar sempre as palavras exatas para te conseguir descrever e te conseguir descrever o que é um momento contigo e o quanto isso justifica o desejo de te ter aqui e tudo o resto, o que é dito e o que fica por dizer, por não se encontrarem as tais palavras mais exatas. Só por isso. Será sempre só por isso.

E fico a olhar para ti.

Keith Jarrett

Olha,

E ele não reage.

Continua. Olha!,

E ele desperta. Diz. A sorrir.

Para de olhar para mim. A sorrir, também. Envergonhada ou desconfortável.

Sabes que quando olho para ti estou a ver muito mais do que apenas o teu corpo à minha frente.

Mas não olhes assim para mim.

Tu não fazes ideia. A sorrir. Antecipando que vai ser difícil explicar.

Do quê?

Lá está. Vai ser difícil. Do que é poder ficar a olhar para ti assim. De tudo o que está a acontecer quando tudo para e eu aproveito e olho para ti. Ou quando eu olho para ti e tudo o resto para, se calhar é mais isso. Provavelmente é mais isso.

Uma pessoa não se sabe viva só porque se vê, só porque se identifica fisicamente.

O que é que eu tenho? Fico envergonhada. Sinto-me observada atentamente. Não é fácil. E ri-se, no fim.

Silêncio. Aquela troca de olhares, cúmplice, sabem? Sabem. Mas ela vê-o, a ele, ali à frente dela e não muito mais do que isso. O resto são perguntas, mas nem todas são feitas ou podem ser feitas. Aquela cara de quem não quer arriscar pensar no assunto para não chegar às respostas mais óbvias. Classe. Humildade. Simplicidade. Elegância. E inteligência. E ele já não está ali: ele olha para ela mas vê mais coisas. Vê-a com outras roupas e noutros lugares e noutros ambientes, a viver. Vê sorrisos dela noutras alturas, que virão. Vê-se feliz, a si próprio, o seu próprio reflexo misturado com a existência daquela mulher e vê-se feliz. Não é bem em imagens. É vê-se, sei lá. É cara de quem se vê mas não se vê, propriamente. Não é fácil.

Uma pessoa não se sabe viva só porque se vê, só porque vê partes do seu corpo, só porque se identifica fisicamente. Não. Uma pessoa sente-se viva. Sente-se. E este vê-la é senti-la, é sentir-se nela e misturado com ela quanto baste para que as suas existências se toquem. E ele a sinta, por fim. E esse toque, sentir esse toque, é o que lhe sabe melhor. A cara dele é de quem descobriu isso, de cada vez que se põe a olhar para ela.

Tu conheces-te, mas desse lado. Gostava mesmo que te pudesses conhecer deste.

Para lá, a rir-se, e ele sério mas simpático.

Tu não sabes o que é olhar para ti e ter-te e imaginar mais. Não sabes o que é imaginar o que não se conhece de ti e só serem coisas boas. Há gente que se conhece e que

Para. Só para estruturar o que aí vem.

Eu olho para ti e o que vejo é bom, tão bom, porque tu me chegas. Porque és tão grande que chegas, que enches uma sala inteira só com saudades de ti, não estás lá mas estás, e é uma sala e tem paredes, porque sem paredes,

sem paredes aposto que enches uma vida inteira.

Não digas essas coisas.

Não consigo ser preciso, percebes? Gostava mesmo, era mesmo bom que tu te pudesses experimentar. Tu conheces-te, mas desse lado. Gostava mesmo que te pudesses conhecer deste. Que pudesses olhar para ti.

E a seguir dava-te as letras todas que me pedisses e não ias, mesmo assim, conseguir descrever-te. Não ias nem sequer conseguir descrever o que já aconteceu, porque o que já aconteceu não cabe em frases, nem em situações, nem em lugares, nem nas nossas fotografias, quanto mais o que é olhar para ti ao vivo e o que é tentar antecipar o que aí vem ou há de vir.

É bonito o que estás a dizer. Obrigada.

Meio irritado por não se sentir a conseguir. Mais acelerado. Não quero sequer deixar que aches bonito o que estou a dizer porque tenho plena noção de que não estou a dizer nada, nem a aproximar-me do que é olhar para ti. Não consigo. Não é o desenho da tua cara, nem são recordações nem são, sequer, planos para o futuro. Olhar para ti não é nada que já exista ou que possa existir normalmente.

Volta a parar. E cada vez que ele para, ela corta a respiração. Como se lhe respeitasse aquele momento da procura das palavras mais acertadas, ou para tentar ouvir tudo o que ele possa deixar escapar de mais baixinho, curiosa. Portanto ela interrompe a sua própria respiração e levanta ligeiramente os olhos, e olha para ele. E ele retoma. E ela, com ele.

Esse Tudo

Olhar-te transmite uma segurança e uma força que não imaginas. Sinto-me capaz de tudo, assim, e este tudo é mesmo grande, mesmo muito grande, repara, nem o conheço nem o imagino. Tudo é mesmo o que não conhecemos, sequer, tem que ser, tudo vai além do que conhecemos e até além do que conseguimos imaginar. Entendes? Tem que ser. Por definição e por sermos de certa forma limitados, nós mesmos. Tudo é tudo aquilo que eu sei que existe ou que pode existir à nossa volta mas que eu não conheço, que só sei que existe porque o sinto possível. E eu sinto-me capaz disso quando paro para olhar para ti. Percebo-me capaz desse tudo, entendes?

Entendes o que é procurar explicar isto? Que isso implica tentar perceber, primeiro, e que sem o perceber, sem o delimitar, que se torna difícil de explicar? Impossível?

Ela sorri. Porque ela sorri, porque sabe ouvir, porque sabe ficar só a ouvir ou só a ouvir-me a escrever, tal com a imaginei e tal como gostava que aqui estivesse.

Gostava que pudesses ficar a olhar para ti para perceberes o quanto és e que, sendo tu assim, que me podem faltar palavras quando apenas digo que gosto de ti, mas que essas, que são tão fáceis de escrever, olhando para ti, que essas são verdade e verdadeiras.

Silêncio.

Olha,

Ela olha. Hm.

a

Imagem (Keith Jarrett – The Koln Concert): Fonte

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