Partidos.

Posted on Outubro 2, 2015 por

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O papiro para Domingo.

O papiro para Domingo.

Estou indeciso.

Estou muito indeciso. Estou tão indeciso que poderia até, só com o peso da minha indecisão, perfazer os 11,9% “a mais” da sondagem da Intercampus do dia 28 de setembro, cuja soma das percentagens “totalizava” 111,9%.

Isto se não fosse o valor dos indecisos cair fora das percentagens das intenções de voto (ou seja, votos em partidos, brancos ou nulos) e, aí, a soma ser 100% com os 9,4% de votos brancos e nulos, não diretamente expressos no gráfico. Mesmo assim, ainda houve alguma malta a insurgir-se contra a fiabilidade das sondagens com base nisto. Em defesa destes, também não percebo porque é que os votos nulos e, sobretudo, os brancos contam para o “bolo”, se depois são como aquelas velas das faíscas, que se retiram logo a seguir a cantar-se os parabéns e morrem no esquecimento, nem que o bolo estivesse cheio delas. Mas enfim, é aí que está o resto dos 100%, indecisos exclusive, na sondagem da Intercampus.
Não precisam de agradecer pelo esclarecimento. Aliás, eu é que agradeço, como indeciso, pelo facto de me terem incluído como parte do grupo, quando esses pelintras da Intercampus os excluem para calcular percentagens dentro das intenções de voto efetivas. Isto realmente é só macacadas.

Mas a verdade é essa – estou indeciso para estas legislativas que se aproximam. Pertenço a essa infame parcela da população que, com programas apresentados, debates e campanhas, continua a não saber a quem confiar a sua miserável cruz. Isto só pode acontecer por um de dois motivos nestas grandes decisões que afetam criticamente o nosso bem-estar e felicidade: ou não há alternativas de jeito ou há várias alternativas de elite. Deste segundo tipo de indecisão, todavia, só me ocorrem situações gastronómicas. As políticas e, tristemente, também algumas gastronómicas enquadram-se no primeiro tipo.


Sobre PàF e PS, já tudo foi debatido, esmiuçado, dito e, sobretudo, desdito e contradito – pelos opositores e principalmente pelos próprios.

Sobre PàF e PS, já tudo foi debatido, esmiuçado, dito e, sobretudo, desdito e contradito – pelos opositores e principalmente pelos próprios. Nunca é demais, porém, salientar a riqueza onomatopeica da sigla PàF, de um repentismo que sempre aporta a imagem de um caçador furtivo que atrai os seus alvos com um suculento petisco, o qual, na verdade, se revela ser um truculento isco…  E PàF!

(Aliás, estou certo que isco já provém de petisco… Alguém confirma? Pelo menos comigo é um truque que eu mordo sempre.)

O que, claro, é totalmente abonatório para um candidato a governar Portugal. Os visionários das relações públicas dirão antes que é uma pessoa, como qualquer outra (e isto é muito importante), montando armadilhas para apanhar os ratos que se banqueteiam no porão deste país que navega com rumo certo. E PàF!… Certo, chega disto. Também não é assim tão mau – há sempre, se me dão licença, o PURP.


No outro lado da barricada, tenho assistido com nostalgia à nova temporada da Floribella, com António Costa a mostrar-se sempre muito, muito confuso e disfarçando precisar muito dos conselhos da Mamã Árvore.

No outro lado da barricada, tenho assistido com nostalgia à nova temporada da Floribella, com António Costa a mostrar-se sempre muito, muito confuso e disfarçando precisar muito dos conselhos da Mamã Árvore. Nunca percebi qual era realmente a árvore da Floribella, mas nesta temporada suponho que seja um carvalho – o espécime José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa. O restante PS, esse, prepara-se ansiosamente para zurzir Costa como o salgueiro que havia em Hogwarts. É caso para dizer que parece que é cada um mais tronco que o outro.

O arvoredo silencioso, parecendo observar expectante a cabana isolada, que resguarda mas não ampara. Fotografia encontrada aqui: http://bit.ly/1JI4aj1

O arvoredo silencioso, parecendo observar expectante a cabana isolada, resguarda-a mas não a amparará.
Fotografia encontrada aqui: http://bit.ly/1JI4aj1


Este BE tem esse mérito: focou a sua campanha nos temas realmente estruturantes da política nacional e internacional. […] O lado mau disto tudo? Difundiu asneiras atrás de asneiras […]. Enfim, meteu-se mais em assuntos sérios – compreende-se o desconforto.

Já que falávamos em carvalhos, passemos às bolotas – que são novidade por não terem sido um tema de primeira linha para o BE este ano. Este BE tem esse mérito: focou a sua campanha nos temas realmente estruturantes da política nacional e internacional. É um facto e esta demonstração de maturidade pode valer-lhe a subida ao pódio nestas eleições (podendo apenas especular-se sobre a eventual fatia que teria o CDS). O lado mau disto tudo? Difundiu asneiras atrás de asneiras, empratando artisticamente factos e números generosamente temperados com a falácia demagógica que é o sal e a pimenta da vida política, quando a essência ainda não está lá. Enfim, meteu-se mais em assuntos sérios – compreende-se o desconforto.

Logo eu, que sou um gajo facilmente sugestionável que inconscientemente segue os exemplos da televisão, quando assistia a intervenções de Catarina Martins ou Marisa Matias, ficava logo com vontade de ir ludibriar alguém, apenas falando com muita, muita convicção. Apetecia-me logo bater ali à porta da D. Otília, esposa dedicada e mãe de três, do 2º Direito e acusá-la de permitir uma fuga de cérebros diária de sua casa. Depois voltam às seis da tarde. Mas de manhã é vê-los todos a fugir e ela a encorajar! Diabos a levem, D. Otília… Diabos a levem.


Notas soltas:

  • Banzado com o facto de haver espaço democrático para PEV e PAN;
  • PCTP/MRPP poderia encontrar uma sigla única – proponho OQIÉP;
  • Ironia semântica da palavra “partido”.
O cérebro ilude os olhos mostrando-lhe cores e mais cores; mas sabe é tudo cinzento. Muito cinzento. Fotografia encontrada aqui: http://bit.ly/1WAHpad

O cérebro ilude os olhos mostrando-lhe cores e mais cores; mas sabe que tudo é cinzento. Muito cinzento.
Fotografia encontrada aqui: http://bit.ly/1WAHpad

Apesar de ser um indeciso justo e equitativo, a dissertação já vai longa e não a irei estender com a CDU e os restantes partidos, senão para escrever sobre Joana Amaral Dias (claro; mas já lá vamos), para me manifestar banzado com o facto de haver espaço democrático para PEV e PAN (intriga-me pensar nas divergências de opinião que terão levado as pessoas do PAN a fundar um novo partido…), para devanear que a eterna coligação PCTP/MRPP poderia seguir o exemplo da PàF e encontrar uma sigla única (na linha dos acentos, proponho OQIÉP – O Que Importa É Participar) e ainda para explicar que continua a haver dirigentes e partidos que não merecem a mais minúscula publicidade que eu lhes poderia dar ao referir os seus nomes.

Isto foi muito brusco, vou aligeirar a coisa com um devaneio adicional: estas eleições são o culminar da ironia semântica da palavra “partido” para definir uma agremiação política. 16 candidatos. Partidos.


“O melhor mesmo é a rendição ao primal instinto macho e votar Agir!”

Joana Amaral Dias. Desculpem, mas é incontornável. Por esta altura, já todos estarão a pensar de mim o mesmo que eu já pensei: “com tanta indecisão, o melhor mesmo é a rendição ao primal instinto macho e votar Agir!”. E com toda a razão. Eu próprio tenho dificuldade em contra-argumentar com lógica, mas a verdade é que também não me revejo nesta alternativa de Joana Amaral Dias. Não sei se se deve ao facto histórico – e perdoem-me ela e as leitoras por estes meus rudes costumes – de, pessoalmente, nunca a ter achado grande chouriço, se ao facto presente da campanha do Agir só ter servido para encher chouriços. Mas o motivo andará em torno do fumeiro e isso chega para me convencer de que estou certo.

A mulher da minha vida na política (é uma força de expressão – isto para mim é um contrasenso) chama-se Ana Drago. Mas raios, se quiser abstrair-me da situação económica do país lendo um romance, leio-o em livro que sempre fica melhor na estante de casa do que um programa eleitoral.


Uma charada final.

Concluo com uma charada, em jeito de momento zen: há, nestas eleições, um partido que apoia oficialmente a independência da Catalunha. Um partido, portanto, que defende a procriação fecunda da República, com o nascimento de um novo Estado soberano que se liberta das garras da Monarquia parlamentarista espanhola! Qual é?

Fica a resposta.


Até segunda.

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