Contra la perspectiva incompleta de la palabra completo

Posted on Janeiro 7, 2016 por

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Depois de uma vitória daquele tamanho, contra alguém daquele tamanho, as perguntas foram chegando com a mesma naturalidade com que Guardiola as foi esperando, relaxado, enquanto bebia água pela garrafa de plástico, e as foi devolvendo, uma por uma. Como se não fossem perguntas, apenas tempo que é preciso esperar até poder levantar-se e regressar ao balneário para celebrar com os seus jogadores.

É que há perguntas que são más, e o problema é esse. E há as óbvias e más e que portanto tanto são más antes como depois de serem feitas. Não têm remédio, não merecem resposta, apenas sorrisos e simpatia na medida exata para se confundirem com a fina ironia que há de sempre caracterizar os mais nobres durante o diálogo ou apenas durante a resposta. Sorrisos e simpatia que querem mais dizer que coitadinho, olha lá para ti, és tão estupidozinho e fraquinho, coitadinho. Enfim.

Depois de um cinco zero contra o grande rival, Guardiola recebeu em conferência de imprensa uma série de perguntas óbvias e más, daquelas, e recebeu-as relaxado e de mão no queixo e aborrecido e a beber água por uma garrafa de plástico não por desprezo, soberba, ou falta de modéstia ou respeito. Não. Fê-lo assim porque é assim que se recebem perguntas daquelas,

de que se cinco zero quer dizer que se é melhor,

não, só quer dizer que hoje fomos melhores,

de que se cinco zero quer dizer que a ideia de jogo do Barcelona é superior,

não não não, não é verdade, vocês não podem fazer análises dessas depois de um resultado destes,

de que se com este resultado o Barça é a melhor equipa do mundo,

e não não, isso só o tempo o dirá, nós só tentamos jogar bem, temos que ter a humildade de deixar o tempo decidir se se lembra de nós daqui a uns anos,

etcétera.

Há ainda tempo para Guardiola recordar a todos que

“El resultado ya sabéis la opinión que tengo, siempre es la consecuencia del juego.” (Guardiola, 29 de Novembro de 2010, em Barcelona)

Decore-se isto. Esta última frase é mesmo importante. Volto a escrever, só para o caso.

O resultado será sempre a consequência do jogo.

Chega a parecer um argentino a falar de futebol.

E no entretanto, voltando à entrevista, há uma, e apenas uma, pergunta interessante. E não por acaso coincide com uma das poucas caras sérias que Guardiola põe durante a entrevista. E com dois dos poucos silêncios verdadeiros que ele faz, durante a mesma.

A pergunta é interessante e a resposta, precisamente por isso, não é fácil. Ou seja: é óbvia, mas não é fácil. Porque escolher palavras para dar a resposta é trabalho árduo, escolher as palavras mais acertadas. Explicar de forma sucinta algo tão complexo, e fazê-lo bem, com os recursos disponíveis, está ao alcance de poucos.

Guardiola fala mais de futebol, nos sete minutos desta conferência de imprensa que muita gente toda somada e multiplicada e elevada ao expoente de algo com muitos zeros ao longo da vida; fala mais de futebol ao longo de meros segundos do que o que pode ser recolhido em coleções inteiras de livros, existentes e por existir. E fá-lo todas as semanas, desde que começou, fá-lo-á todos os dias, a toda a hora, certamente.

(Imagina passar um dia inteiro com Guardiola.)

o que é que cabe e deve caber na palavra “completo”, a este nível? O que é que devemos medir e comparar?

A pergunta foi de se não existe uma perspetiva algo incompleta da palavra “completo” quando se diz que o Messi é um jogador menos completo quando comparado com outros futebolistas.

Afinal, o que é ser completo? O que é que realmente importa? O que define alguém como melhor? Qual é a perspetiva completa da palavra “completo”?, o que é que cabe e deve caber na palavra “completo”, a este nível? O que é que devemos medir e comparar?, e como é que o devemos medir? O que é jogar bem?

Quem é Messi? Messi é só Messi? A partir de quando é que o impacto de alguém, de forma tão transcendental e disruptiva numa determinada realidade, não eleva o seu próprio conceito além de si mesmo? Quem é, na verdade, Messi?

Messi não se confunde com Ronaldo, nem com Pelé, nem com Maradona. Messi confunde-se com futebol. Com o conceito do futebol. Com o próprio jogo. Ele é o próprio jogo jogado, a ser jogado e a reinventar-se enquanto ser vivo.

E Guardiola. Guardiola falou melhor que isto. Obviamente.

Há quem diga que o futuro os poderá juntar novamente em Inglaterra. Para que o futebol possa contar mais uma história bonita, juntando os dois melhores de sempre do mesmo lado.

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Vídeo original da conferência de imprensa: Pep Guardiola en conferencia de Prensa despues de la victoria 5 – 0

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